Nícolas Elifas: quando o olhar transforma o mundo

Wilson Smith

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Em “Artetetura”, o artista reúne arquitetura, paisagem, retrato, cotidiano e memória em uma obra múltipla, atravessada pela experiência de observar e transformar aquilo que o mundo oferece em imagem

Há artistas que escolhem um território e passam a explorá-lo em profundidade. Outros parecem preferir o movimento: atravessam linguagens, assuntos, formas e experiências, permitindo que uma imagem conduza à outra. Nícolas Elifas pertence a esse segundo grupo. Seu trabalho pode partir de uma fachada, de uma paisagem ou de um espaço arquitetônico, mas também encontra matéria em um rosto, em uma relação de afeto, em um animal, em um elemento figurativo ou em uma cena aparentemente do cotidiano. É o olhar, mais do que o tema, que estabelece a continuidade entre essas diferentes imagens.

Arquiteto e artista visual, Nícolas construiu sua formação e sua trajetória entre o desenho, a pintura e a observação do mundo. Sua relação com a arquitetura começou ainda na graduação em Arquitetura e Urbanismo, iniciada em 2004. Ao longo desse percurso, o espaço passou a ser percebido não apenas como estrutura, mas como composição: perspectiva, luz, proporção, sombra e a maneira como as pessoas se relacionam com os ambientes foram formando um repertório que, posteriormente, atravessaria também sua produção artística.

Desde 2014, quando começou a participar de exposições, esse olhar tornou-se cada vez mais presente em seus trabalhos. Mas reduzi-lo à arquitetura seria deixar de fora justamente uma das características mais marcantes de sua produção: a capacidade de transitar entre diferentes assuntos sem abandonar uma mesma inquietação — a de observar.

A exposição Artetetura nasce desse percurso

O próprio título, uma fusão entre arte e arquitetura, surgiu da necessidade de nomear o encontro entre duas linguagens que, para Nícolas, nunca estiveram realmente separadas. A ideia amadureceu também em conversas com sua esposa, Tarsila Marques, que assina a curadoria da mostra.

“Artetetura é essa fusão entre Arte e Arquitetura. Mas não é apenas uma brincadeira com as palavras. É uma síntese da minha própria trajetória e da forma como enxergo o morar”, explica.

Mas talvez seja justamente aí que a exposição comece a se expandir para além de seu próprio nome. Porque Artetetura não encerra o artista em uma única linguagem. Ao contrário, funciona como uma espécie de ponto de encontro entre diferentes formas de perceber e representar o mundo.

Aprender a olhar

Antes de existir uma pintura, existe uma observação. Antes da técnica, existe uma pergunta silenciosa sobre aquilo que chamou a atenção do artista. Nícolas entende o processo criativo como um exercício de amadurecimento do olhar. Para ele, saber representar é fundamental, mas a técnica, sozinha, não é capaz de produzir uma experiência artística.

“A técnica é fundamental para saber representar, é como quando aprendemos o ‘ABC’ para formar as palavras. Porém, só a mecânica não basta. É preciso amadurecer o olhar”, explica.

É a partir dessa observação que seus trabalhos começam a ganhar forma. Uma cena, um espaço, uma pessoa, um animal ou uma paisagem podem interromper sua atenção e se transformar em imagem. Composição, perspectiva, luz, sombra, textura e cor entram nesse processo não para reproduzir fielmente aquilo que foi visto, mas para traduzir aquilo que foi sentido.

“Não quero simplesmente reproduzir uma fotografia ou uma realidade. Quero interpretar aquilo que estou vendo e transmitir a sensação que aquela cena provocou naquele momento.”

Essa distinção ajuda a compreender a amplitude de sua produção. A imagem não funciona simplesmente como registro. Existe uma escolha sobre o que merece permanecer, sobre aquilo que pode ser deslocado e sobre a sensação que deve sobreviver à cena original.

Por isso, uma fachada pode ser muito mais do que uma fachada. Uma janela pode carregar uma história antes mesmo de ser percebida como parte de uma composição. Uma rua pode guardar marcas do tempo. Mas o mesmo olhar que encontra narrativa nesses lugares também pode encontrar intimidade em um retrato, delicadeza em uma relação entre mãe e filho ou interesse na presença de um animal.

“Uma fachada, uma janela, uma rua, uma paisagem ou até mesmo alguém exercendo seu ofício podem parecer elementos absolutamente comuns para quem passa por eles todos os dias”, observa.

O que muda, portanto, não é necessariamente aquilo que está diante do artista. É a maneira como ele decide enxergar.

Maceió entre paisagem e memória

Essa atenção ao cotidiano encontra em Maceió um território especialmente íntimo. É a cidade onde Nícolas nasceu, se formou, construiu sua família e desenvolveu sua trajetória como arquiteto e artista. Ao longo dos anos, seus desenhos e pinturas também se tornaram uma maneira de registrar diferentes aspectos da cidade — não como quem tenta congelá-la, mas como quem preserva aquilo que a passagem do tempo poderia levar consigo.

Em 2019, esse olhar apareceu na exposição Pessoas e Cenários da Cidade. No mesmo ano, o artista lançou, em parceria com o professor Luiz Sávio de Almeida, o livro Traços Cotidianos, também construído a partir da observação da cidade e das experiências que atravessam a vida cotidiana.

Mas Nícolas não vê sua produção como uma tentativa de documentar Maceió literalmente. Seu interesse está menos em registrar a cidade como ela é e mais em preservar a forma como ela foi percebida.

“Não é necessariamente uma tentativa de documentar Maceió de maneira literal, mas de registrar aquilo que meu olhar percebeu e aquilo que, de alguma maneira, me marcou”, pontua.

Essa perspectiva transforma a cidade em uma espécie de memória viva. Edifícios podem desaparecer, paisagens podem mudar, novas construções podem ocupar lugares antigos, mas a arte consegue guardar uma percepção daquele tempo.

“A cidade muda, as paisagens mudam e as pessoas mudam, mas a arte pode preservar uma percepção daquele lugar e daquele momento. Talvez seja isso que mais me interessa. Não apenas registrar a cidade que existe, mas registrar também aquilo que ela provoca em nós”, contextualiza.

Nesse sentido, Maceió aparece em sua produção como território afetivo. Está nas ruas e nas paisagens, mas também nas pessoas, nos encontros e nas experiências que ajudaram a construir sua trajetória. E talvez seja justamente por isso que seu trabalho não permaneça restrito à cidade.

Um artista feito de muitas referências

A arquitetura é uma presença importante em sua obra, mas está longe de ser sua única paisagem. Música, cinema, literatura, moda, cultura popular, relações afetivas e experiências cotidianas também atravessam sua produção. Seu processo criativo parece funcionar como um arquivo aberto, em que diferentes referências se acumulam, se cruzam e, em algum momento, encontram uma nova forma.

Essa pluralidade aparece em trabalhos inspirados no cinema, como a pintura encomendada a partir da cena de Superman x Doomsday, de Batman vs Superman: A Origem da Justiça; na música, com os desenhos de Andreas Kisser e Derrick Green, do Sepultura; e na cultura popular, com Capelo de Cores, obra apresentada na exposição Folklore, em 2024.

Mas ela também está presente em imagens mais íntimas e figurativas: retratos, relações familiares, animais, objetos e pequenos acontecimentos que despertam sua atenção. É nesse conjunto aparentemente diverso que a unidade de sua produção se revela. Não existe necessariamente um assunto único que defina Nícolas. Existe uma maneira particular de olhar para diferentes assuntos.

“Acredito que tudo aquilo que vivenciamos pode alimentar a produção artística. Tudo aquilo que vemos, ouvimos e vivenciamos vai construindo nosso repertório e, em algum momento, essas experiências reaparecem naquilo que produzimos”, explica.

O repertório, para ele, não nasce apenas do contato com artistas ou movimentos reconhecidos. Pode surgir de uma conversa, de uma experiência, de uma pessoa que provoca uma reflexão ou de uma imagem que permanece na memória sem que se saiba imediatamente por quê. É como se cada experiência pudesse deixar uma espécie de rastro. E a arte fosse o lugar onde esses rastros eventualmente se encontram.

O afeto também é matéria

Entre os diferentes caminhos percorridos por sua produção, o retrato ocupa um espaço particular porque desloca o olhar para a presença humana.

Há algo de diferente quando a imagem não busca apenas representar alguém, mas preservar uma relação. Um gesto, uma proximidade, uma expressão, a maneira como uma mãe segura o filho — pequenos acontecimentos que talvez durem poucos segundos, mas que podem adquirir outra permanência quando transformados em imagem.

Nesse território, a fotografia e as outras linguagens utilizadas pelo artista deixam de ser apenas instrumentos de representação. Tornam-se formas de guardar aquilo que dificilmente poderia ser explicado apenas por palavras.

A dimensão afetiva também ajuda a compreender por que sua produção pode passar de uma paisagem urbana para um retrato ou de uma cena arquitetônica para a presença de um animal sem que isso represente uma ruptura. Em todos esses casos, existe algo que desperta sua atenção. O assunto muda. O exercício do olhar permanece.

Entre o registro e a interpretação

Em um cotidiano cada vez mais atravessado pela imagem digital, a pintura e o desenho encontram, em seu trabalho, não uma oposição à tecnologia, mas uma possibilidade de diálogo. Fotografias e imagens digitais podem servir como ponto de partida, mas o resultado final depende das escolhas do artista e da maneira como ele interpreta aquilo que recebeu como referência.

“Quando parto de uma fotografia ou de uma imagem digital para produzir uma obra, não estou simplesmente reproduzindo aquilo que a câmera registrou. Existe um processo de seleção, interpretação e construção. O que me interessa é justamente perceber como uma imagem pode deixar de ser apenas um registro e se transformar em uma experiência artística”, nos explica. 

A imagem, então, passa por uma espécie de segunda existência. Há a fotografia, mas há também aquilo que o artista acrescenta a ela. Há o que foi registrado, mas também aquilo que foi percebido. Uma luz pode ser alterada, uma perspectiva deslocada, uma textura enfatizada, uma cor transformada. O resultado é uma imagem que já não pertence inteiramente ao instante original. É interpretação.

O espaço que guarda histórias

É nesse ponto que Artetetura encontra novamente a arquitetura — não como limite, mas como uma das camadas possíveis do trabalho de Nícolas.

Entramos em uma casa e pensamos nos móveis, nas cores, na decoração. Mas antes de tudo isso houve uma ideia: alguém pensou naquele espaço, imaginou sua circulação, suas aberturas, sua luz, suas proporções. Depois, vieram as pessoas. E, com elas, vieram as histórias.

“Um ambiente pode ser funcional, mas nunca é apenas funcional. Ele passa a guardar as histórias, os hábitos, as relações e as experiências particulares de quem o habita”, é essa dimensão que o artista deseja revelar. A arquitetura pode cumprir uma função, mas também pode provocar emoções. Pode ser observada não apenas pela forma, mas pela experiência que produz.

“Quero que o visitante perceba que a arquitetura também pode provocar emoções e que um espaço pode ter uma dimensão artística, justamente porque ele não é apenas matéria ou função, mas também experiência e memória.”

A frase poderia definir a exposição. Mas também poderia ser ampliada para definir uma parte importante de sua própria produção: aquilo que parece ser apenas matéria quase nunca permanece apenas matéria. Uma casa guarda histórias. Um rosto guarda experiências. Um animal pode carregar uma relação. Uma paisagem pode despertar uma lembrança. Um objeto pode devolver uma sensação. É nesse espaço entre aquilo que vemos e aquilo que sentimos que Nícolas constrói seu trabalho.

Um convite para olhar novamente

Ao tentar resumir Artetetura em uma imagem, Nícolas não escolhe uma obra específica. Escolhe uma cena: alguém diante de algo que sempre esteve ali e que, pela primeira vez, decide realmente observar.

“A imagem que melhor represente a Artetetura seja justamente a de alguém parando diante de algo que sempre esteve ali e, pela primeira vez, olhando de verdade”, define.  A escolha talvez diga tanto sobre a exposição quanto sobre o artista.

Porque, no fim, sua produção não parece interessada em determinar aquilo que deve ser visto. Ela oferece outras possibilidades de olhar.

A arquitetura ensinou Nícolas a perceber o espaço. A arte ampliou esse espaço para outros assuntos: pessoas, afetos, animais, cultura, cinema, música, paisagens e cenas que poderiam desaparecer na velocidade do cotidiano. A memória, por sua vez, transformou essas imagens em algo que pode permanecer.

É por isso que Artetetura pode ser compreendida para além da arquitetura. A exposição apresenta uma linguagem, mas também revela um artista que não se deixa encerrar por ela. Seu território é múltiplo porque múltiplas são as coisas que o atravessam. Talvez seja essa a delicadeza maior de seu trabalho: perceber que a arte não precisa necessariamente nos apresentar algo que nunca vimos. Às vezes, ela só precisa interromper a pressa.

Fazer com que uma rua pareça nova. Que um rosto permaneça um pouco mais. Que um animal deixe de ser apenas passagem. Que um espaço revele a história que carrega. Que uma cena cotidiana encontre outra dimensão. E, por alguns instantes, aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos finalmente consiga ser visto.

Serviço: As obras podem ser adquiridas pelo WhatsApp: 82 99835-7913 ou pelo Instagram: @n.q.u.a.d.r.o.s / @narqubb.

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