A ONU entre o quintal e o império

Andre Cesar

Lula discursa

Foto: Ricardo Stuckert

 

A Assembleia Geral da ONU costuma oferecer discursos diplomáticos, cuidadosamente embalados para que cada país diga o que pensa sem necessariamente dizer de quem está falando. Desta vez, Lula facilitou um pouco o trabalho dos intérpretes. Não pronunciou o nome de Donald Trump, mas deixou poucas dúvidas sobre o destinatário de boa parte do recado.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou o presidente brasileiro. A frase, recebida com aplausos no plenário, condensou um discurso construído em torno da soberania num momento em que as relações entre Brasília e Washington acumulam atritos e a política externa americana volta a exibir sua força como instrumento de pressão. Lula falou em “tentações hegemônicas”, ingerência em eleições e divisão do mundo em zonas de influência.

Não era necessário citar os Estados Unidos. Quando se fala da “maior potência militar do mundo” diante de uma plateia reunida em Nova York, a charada não exige exatamente um especialista em geopolítica.

O interessante é que Lula não ficou apenas na defesa do próprio quintal. Criticou a interferência externa na Venezuela, condenou o embargo econômico a Cuba e, ao mesmo tempo, afirmou que a Nicarágua não resolverá seus problemas impedindo a oposição de disputar eleições. A mensagem procurou estabelecer um princípio: soberania não deveria servir nem de autorização para uma potência decidir o destino de outro país, nem de salvo-conduto para governos eliminarem a democracia dentro de casa.

O discurso também levou para a tribuna da ONU questões diretamente ligadas aos atritos recentes entre Brasil e Estados Unidos. Lula rejeitou a presença de forças estrangeiras no combate ao crime organizado e resumiu a posição com outra frase calculada para produzir repercussão: “Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas”. Em vez disso, cobrou cooperação para interromper o fluxo internacional de armas e dinheiro que abastece as organizações criminosas.

Havia ainda um destinatário doméstico. A poucos dias da eleição presidencial, Lula alertou para redes de desinformação e para possíveis interferências externas na campanha brasileira. Política externa e política interna, portanto, dividiram o mesmo púlpito. Em ano eleitoral, até a ONU fica um pouco mais perto de Brasília.

Depois veio Trump. E o contraste ficou ainda mais evidente. O presidente americano usou seus 37 minutos para exaltar a força dos Estados Unidos e defender as ações de seu governo pelo mundo. Falou da guerra contra o Irã, disse que poderia “aniquilar” o país caso não haja acordo, atacou o Tribunal Penal Internacional e apresentou a atuação americana em diferentes conflitos como demonstração de uma potência que prefere agir a esperar.

Cuba recebeu tratamento especial. Trump chamou a ilha de Estado falido, afirmou que o comunismo não tem lugar nas Américas e prometeu que a liberdade chegará ao país. A delegação cubana respondeu da maneira mais visível possível: levantou-se e deixou o plenário. Às vezes, na ONU, a resposta mais eloquente não precisa de microfone.

Foi assim que a Assembleia ofereceu, em poucas horas, duas concepções bastante diferentes de soberania. Lula pediu limites para a ação das grandes potências e defendeu o multilateralismo justamente num momento em que a ONU parece cada vez menos capaz de conter guerras. Trump reivindicou para os Estados Unidos o papel de potência que age, pressiona e, quando considera necessário, usa sua força.

Nenhum dos dois discursos muda sozinho a ordem mundial. Discursos na ONU raramente têm esse poder. Mas revelam com clareza o mundo que cada líder gostaria de construir.

E talvez esteja aí o ponto mais importante da fala brasileira. Quando Lula diz que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, não está apenas provocando Trump. Está reivindicando para o país o direito de escolher seus parceiros, defender seus interesses e discordar de Washington sem transformar divergência em submissão. Pode parecer uma obviedade entre nações soberanas. Em 2026, aparentemente, já não é.

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