A eleição que não cabe no Planalto

Andre Cesar

urna menor

Faltam poucos dias. E, como acontece a cada quatro anos, o Brasil parece estar escolhendo apenas um presidente da República. A maior parte das pesquisas, dos debates, dos memes, dos ataques e das manchetes gira em torno do Palácio do Planalto. É compreensível. A Presidência concentra poder, simbolismo e atenção. Mas a urna de domingo vai decidir muito mais do que quem ocupará o principal gabinete de Brasília.

O eleitor vai escolher também governadores, senadores, deputados federais, estaduais e distritais. Ao todo, mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a votar. E há um detalhe especialmente importante nesta eleição: estarão em disputa todas as 513 cadeiras da Câmara e 54 das 81 vagas do Senado. Dois terços da Casa. É uma renovação com potencial para alterar a relação de forças em Brasília.

Quem vencer a Presidência descobrirá rapidamente que ganhar a eleição é apenas a primeira parte do problema. Para governar, terá de conversar com o Congresso que sair das mesmas urnas. É ali que passam projetos, reformas, orçamento, indicações e boa parte das decisões que determinam até onde um governo consegue ir. No Senado, passam ainda decisões importantes, como a aprovação de autoridades indicadas pelo presidente e eventuais processos de impeachment.

Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes de domingo não seja apenas quem venceu para presidente, mas que Congresso o brasileiro entregará ao vencedor.

Nos estados, a mesma lógica se repete. Vinte e sete governadores serão escolhidos, ao lado dos deputados estaduais e distritais. São disputas que às vezes desaparecem no noticiário nacional, mas interferem diretamente na segurança pública, na educação, na saúde, na infraestrutura e na relação política e financeira entre Brasília e os estados. O Brasil que começa a tomar forma no domingo não será construído apenas no Palácio do Planalto.

Mas chegar à urna nunca pareceu tão ruidoso.

A reta final da campanha mistura propostas, acusações, investigações, vazamentos, vídeos, cortes, memes e informações falsas numa velocidade em que nem sempre há tempo para separar uma coisa da outra. Um documento verdadeiro pode alimentar uma interpretação falsa. Uma mentira pode circular mais rápido do que o desmentido. Um vazamento pode revelar um fato de interesse público e, ao mesmo tempo, ser usado politicamente por quem escolheu o momento de divulgá-lo. O eleitor não recebe apenas informação. Recebe versões.

A tecnologia tornou essa disputa ainda mais sofisticada. Neste ano, o próprio Tribunal Superior Eleitoral precisou estabelecer critérios específicos para caracterizar deepfakes produzidos com inteligência artificial. Na reta final, a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida entrou no centro da campanha presidencial e mostrou como um tema pode rapidamente deixar o debate sobre os fatos para alimentar uma disputa de versões. Houve um projeto apresentado em 2007 para retirar o título de Padroeira do Brasil, arquivado no ano seguinte. A associação dessa proposta à atual disputa presidencial provocou decisões da Justiça Eleitoral e uma nova batalha política sobre o que era fato, interpretação ou desinformação.

É a velha disputa política adaptada à velocidade do celular. Antes, candidatos disputavam principalmente o voto. Agora disputam também a interpretação dos fatos. Não basta que alguma coisa tenha acontecido. É preciso vencer a batalha sobre o que aquilo significa.

E essa disputa não termina nas fronteiras do país. No domingo, brasileiros que vivem nos Estados Unidos e em dezenas de outros países também irão às urnas. São 918.876 eleitores aptos a votar no exterior, distribuídos por 186 cidades ao redor do mundo. Para eles, porém, a eleição é exclusivamente para presidente e vice-presidente da República. É quase como se existissem duas eleições brasileiras simultâneas: aqui dentro, escolhe-se toda uma estrutura de poder; lá fora, o voto se concentra justamente na disputa que domina as atenções.

Talvez esteja aí um dos maiores desafios para quem entra na cabine de votação. Não escolher no calor do último vídeo recebido, da denúncia da manhã, do corte de quinze segundos ou da indignação produzida sob medida para circular nas redes. Democracia exige escolha. Mas escolha exige alguma disposição para separar informação de propaganda, fato de versão e convicção de manipulação.

No domingo, os holofotes estarão apontados para a corrida presidencial. É natural. Só que, quando as urnas forem fechadas, o Brasil terá escolhido muito mais do que um presidente. Terá definido governadores, renovado toda a Câmara, dois terços do Senado e as assembleias legislativas. Terá desenhado o tabuleiro no qual o país jogará pelos próximos quatro anos.

A eleição mais importante talvez seja justamente aquela que cabe inteira na urna, mas quase nunca cabe inteira na campanha.