Uma conversa difícil, uma notícia ruim ou uma cobrança e pronto: parece que a vida virou um verdadeiro inferno, que nada dá certo e que estamos condenados a ser infelizes. É impressionante a nossa capacidade de transformar um único momento ruim em uma verdade absoluta que nos regerá para sempre. Sem perceber, damos muito poder a acontecimentos que não saíram como planejado e, com isso, intensificamos sentimentos e sensações que poderiam ser passageiros, mas martelam na mente até nos prejudicar de verdade.
Mesmo quem tem pensamentos e atitudes positivos não escapa da armadilha de generalizar acontecimentos ruins, às vezes deixando que eles ditem o rumo de certos aspectos da vida. Acredito que, em grande parte, isso acontece porque subestimamos a realidade e fantasiamos sobre a possibilidade de viver em um mundo ideal. Mas o fato é: a vida, em sua realidade nua e crua, não é tão fácil, muito menos justa. No entanto, isso não significa que, quando as coisas não saem como queremos, devemos entrar imediatamente nessa onda e achar que tudo está arruinado.
Gosto de observar meu comportamento e, vez ou outra (muito mais do que eu gostaria), me pego nesse espectro de interpretações distorcidas. Há dias em que penso que nunca conseguirei zerar minha lista de afazeres e que tudo o que faço não está à altura do que se espera. São nesses dias, por exemplo, que considero que tudo está perdido e que vai ficar cada vez pior. É como se aquele dia ruim definisse toda a minha carreira e tudo o que fiz até então, e como se tudo o que era produtivo e útil perdesse o valor num estalar de dedos. Felizmente, no dia seguinte, percebo que tudo não passou de um delírio, que dá, sim, para seguir em frente e que as coisas continuam nos trilhos.
Tenho percebido que esse mesmo “sistema de catastrofização” também ocorre em outras áreas da vida. Quem cresceu em ambientes rígidos, em que tudo parece ter só dois lados (bom e ruim, certo e errado, preto ou branco…), tende a interpretar situações isoladas como se elas definissem o todo. Briga de casal? “É hora de separar”. Um erro no trabalho? “É demissão na certa”. Desentendeu-se com um amigo? “Melhor cortar a relação”. Com esse tipo de reação, tudo se torna mais pesado e faz parecer que um único evento ruim redefinirá tudo o que vem depois.
Fico pensando em como nos faz falta a habilidade de relativizar os acontecimentos (especialmente os ruins) e ampliar nossa flexibilidade. Quanto sofrimento e quantas oportunidades perdidas poderíamos evitar se simplesmente enxergássemos o todo, considerando a impermanência das coisas. Gosto da ideia, presente na filosofia budista, de que “nada é fixo nem permanente; tudo muda o tempo todo”. Isso vale, inclusive, para os momentos de alegria e prazer. Por maiores que sejam o esforço e a boa intenção de prolongar o que é bom, a vida simplesmente seguirá seu curso, trazendo também desconforto, dúvidas e, muitas vezes, sofrimento.
Talvez o imediatismo trazido pela tecnologia esteja moldando nosso cérebro a buscar soluções rápidas e a descartar de imediato o que não nos agrada. Talvez estejamos ignorando que, para viver em sociedade, é preciso exercitar a tolerância consigo mesmo e com o outro, deixando espaço para aceitar as coisas como são, sem querer controlar tudo.
O mundo é complexo, a vida é longa e as relações são cheias de nuances. Deixar que um único evento leve a conclusões precipitadas e decisões rápidas é perder a oportunidade de experimentar a multiplicidade da condição humana.
Fabiano F. é jornalista e autor de livros como “Outro Lugar de Mim” (Ed. Labrador). Saiba mais sobre o livro: linktr.ee/fabianoescritor Siga o autor nas redes sociais: @fabianoautor










