Tarifaço: a conta chegou

Andre Cesar

porto MENOR

Durante meses, o tarifaço americano contra o Brasil parecia mais uma arma de negociação do que uma decisão definitiva. O governo Donald Trump anunciava novas tarifas, Brasília reagia, diplomatas dos dois países se reuniam e o mercado apostava que, em algum momento, haveria um acordo. Esse momento não chegou.

Depois de mais de 30 reuniões entre representantes brasileiros e americanos, os Estados Unidos oficializaram a tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. A cobrança começa em 22 de julho. Pela primeira vez desde o início dessa crise comercial, a ameaça deixa o campo da retórica e passa a produzir efeitos concretos. Essa é a principal mudança. O tarifaço não é mais um instrumento de pressão. Agora é uma realidade.

O chanceler Mauro Vieira afirmou que o Brasil rejeitou exigências consideradas inaceitáveis, como a abertura irrestrita de setores da economia brasileira sem qualquer contrapartida para os produtos nacionais. Chamou a proposta de uma tentativa de “capitulação”. Do outro lado, Washington sustenta que o Brasil mantém práticas comerciais desleais e justifica a medida com base nessa interpretação. Independentemente de quem tenha razão, um fato é incontestável: a negociação fracassou.

E, quando uma disputa comercial chega a esse ponto, ela deixa de ser apenas um problema entre governos. Ela passa a atingir empresas, investimentos e consumidores. No Brasil, exportadores terão de absorver parte do custo, buscar novos mercados ou perder competitividade. Nos Estados Unidos, importadores pagarão mais caro por produtos brasileiros atingidos pela tarifa. Em uma guerra comercial, dificilmente existe um único derrotado.

O governo brasileiro promete recorrer à Organização Mundial do Comércio e utilizar os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica. É um caminho esperado, mas ninguém deve imaginar uma solução rápida. Disputas na OMC costumam levar anos e, hoje, o sistema de solução de controvérsias da organização atravessa uma das maiores crises de sua história. Talvez esse seja o maior ensinamento deste episódio.

O tarifaço nunca foi apenas uma discussão sobre impostos de importação. Ao longo dos últimos meses, ele incorporou disputas políticas, soberania, tecnologia, meio ambiente e interesses estratégicos dos dois países. A tarifa que entra em vigor na próxima semana não encerra essa história. Ela marca justamente o contrário. É o momento em que a negociação termina e a conta começa a chegar.