Uma embaixadora sem visto e um país sob pressão

Andre Cesar

Lula bandeiras

Uma embaixadora brasileira sem visto para permanecer no país onde representa o Brasil. A imagem é quase surreal. O governo Donald Trump decidiu revogar o visto de Maria Luiza Viotti, alegando demora do Brasil em aprovar o novo embaixador americano em Brasília. O governo brasileiro contesta essa versão. Independentemente de quem tenha razão, o episódio simboliza um momento delicado da política externa brasileira, justamente quando o país precisa ampliar mercados, atrair investimentos e fortalecer alianças estratégicas.

O caso com os Estados Unidos não é isolado. Em poucos dias, o Brasil também decidiu rebaixar as relações diplomáticas com a Argentina, depois que Javier Milei voltou a atacar publicamente Lula durante um evento político. Ao mesmo tempo, precisou administrar um protesto formal do Paraguai. O motivo foi uma referência feita por Lula à Guerra do Paraguai, durante um discurso sobre investimentos em defesa. A reação de Assunção foi imediata. Além de manifestar repúdio às declarações, o governo paraguaio voltou a cobrar a devolução de canhões, documentos e outros troféus levados pelo Brasil após o conflito encerrado há mais de 150 anos.

É evidente que essas crises não têm a mesma origem. Trump usa a política externa como extensão da disputa política interna americana. Milei transformou o confronto com Lula em parte da própria estratégia de governo. O Paraguai, por sua vez, aproveitou o episódio para recolocar em pauta uma reivindicação histórica que nunca desapareceu completamente. Nenhum desses atritos nasceu exclusivamente por iniciativa do Brasil.

Mas, em diplomacia, a pergunta mais importante não costuma ser quem iniciou o conflito. A questão é quem consegue encerrá-lo preservando seus interesses.

É justamente aí que mora o desafio. Divergências entre países são naturais. O problema começa quando elas passam a ocupar o espaço que deveria ser dedicado à negociação de acordos, à abertura de mercados, à atração de investimentos e ao fortalecimento das relações regionais. A diplomacia existe para construir pontes. Quando passa a administrar sucessivas crises, inevitavelmente sobra menos tempo e menos capital político para criar oportunidades.

A revogação do visto de uma embaixadora tem enorme peso simbólico. O rebaixamento das relações com a Argentina também. O protesto do Paraguai pode parecer menos grave, mas mostra como até episódios encerrados há mais de um século podem voltar ao centro das relações internacionais quando a confiança entre governos se desgasta.

Isoladamente, nenhum desses episódios redefine a posição do Brasil no mundo. O que chama atenção é o conjunto. A política externa brasileira parece ter entrado numa fase em que trabalha mais para reagir às crises do que para conduzir a agenda. E esse talvez seja o maior desafio da diplomacia: deixar de apagar incêndios para voltar a abrir caminhos.