Trump muda o argumento, mantém a punição

Andre Cesar

porto menor

Mais um tarifaço, acompanhado de mais uma justificativa. Quando Donald Trump anunciou a primeira sobretaxa contra produtos brasileiros, de 25%, o discurso era econômico. Vieram críticas ao Pix, à política comercial brasileira e à suposta falta de reciprocidade. Poucos dias depois, uma nova rodada de tarifas acrescentou mais 12,5%, agora sob argumentos ligados ao desmatamento ilegal e ao trabalho forçado. Na prática, parte dos produtos brasileiros pode chegar a enfrentar uma sobretaxa de até 37,5%, um peso considerável para uma economia que tem os Estados Unidos como segundo maior parceiro comercial.

O curioso é que as justificativas mudam, mas o alvo continua o mesmo. Os Estados Unidos cobram do Brasil avanços ambientais e trabalhistas que eles próprios ainda estão longe de alcançar plenamente. Também convivem com denúncias de trabalho análogo à escravidão, exploração de imigrantes, degradação ambiental e retrocessos na proteção do meio ambiente. Não se trata de dizer que o Brasil não tenha problemas. Tem. Mas é difícil ignorar a seletividade desse discurso.

O próprio argumento ambiental perdeu força nesta semana. Um levantamento do Imazon mostrou que a Amazônia registrou o menor índice de desmatamento para um primeiro semestre em oito anos, justamente quando Washington decidiu usar o tema como uma das justificativas para ampliar as tarifas. Isso não elimina os focos de devastação nem encerra o problema ambiental brasileiro, mas enfraquece a narrativa de que o país estaria avançando na direção oposta.

No Brasil, o governo promete recorrer à Organização Mundial do Comércio. A oposição transforma o episódio em munição eleitoral. Nos Estados Unidos, empresários e parte do Congresso também questionam a estratégia da Casa Branca, preocupados com o aumento de custos e com os efeitos sobre empresas americanas que dependem de produtos brasileiros.

A grande questão agora não é apenas quanto o Brasil perderá, mas quanto tempo levará para reduzir essa dependência. O acordo entre Mercosul e União Europeia, as negociações com mercados asiáticos e a diversificação das exportações deixam de ser apenas uma estratégia de crescimento e passam a ser uma questão de sobrevivência comercial.

No fim, Trump pode acabar produzindo exatamente o efeito contrário ao que pretendia: acelerar o movimento de empresas brasileiras em busca de novos mercados e reduzir, no longo prazo, a influência econômica dos Estados Unidos sobre um dos seus principais parceiros na América Latina.