fotos: Agência Brasil / redes sociais
Lula vai completar 81 anos amanhã com um presente que já entrou para a história brasileira. Tornou-se o único eleito quatro vezes presidente da República e o primeiro a vencer uma disputa presidencial depois de terminar o primeiro turno atrás do adversário. A vitória de domingo acrescenta outro capítulo de superação à sua trajetória, desta vez acompanhado por uma mobilização que ajudou a devolver confiança a uma campanha diante do risco de derrota.
A vantagem de Flávio Bolsonaro na primeira votação havia colocado o PT numa posição que nunca tinha conseguido reverter numa eleição presidencial. Nas três semanas seguintes, estudantes foram às ruas, profissionais de diferentes áreas passaram a produzir e compartilhar conteúdo, e a campanha ganhou participação para além de suas estruturas partidárias. O deputado mineiro André Janones teve papel central na articulação digital, com um canal no WhatsApp que chegou a quase 11 milhões de seguidores. A organização permitiu disputar atenção e manter apoiadores mobilizados num ambiente em que o bolsonarismo havia construído parte de sua força política.
A dimensão dessa reação aparece com especial clareza quando se olha para o interior do país, onde participar de uma eleição pode exigir muito mais do que sair de casa e caminhar até uma escola. Na região de Altamira, no Pará, 118 indígenas Parakanã deixaram a aldeia para votar, numa viagem que envolveu barco, carro e um dia e meio de deslocamento. No primeiro turno, a falta de combustível havia impedido a participação daquele grupo. A escolha declarada por Lula estava ligada à demarcação e à proteção do território. Havia ali uma compreensão concreta do que o resultado das urnas poderia representar para a vida da comunidade.
Esse esforço para participar também apareceu nas redes de carona solidária. Uma única plataforma reuniu mais de 8 mil motoristas cadastrados em 820 cidades, com prioridade para idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Houve quem saísse pelas ruas procurando eleitores que precisavam de ajuda para chegar à seção. A solidariedade assumia uma função política imediata, ao criar condições para que outras pessoas exercessem o direito de votar. Num país de distâncias e desigualdades tão grandes, essa capacidade de organização merece entrar na leitura do resultado.
As dificuldades de transporte tornaram essa ajuda ainda mais necessária. Em Salvador, o Procon identificou 370 ônibus parados em garagens enquanto eleitores denunciavam obstáculos para chegar às urnas. A Justiça determinou o restabelecimento da frota. Em São Paulo e em outras cidades do país também houve redução da frota no domingo de eleição. As responsabilidades precisam ser apuradas, mas a consequência de um serviço insuficiente é bastante concreta: quem depende do transporte público fica mais exposto ao risco de perder a oportunidade de votar. E traz o questionamento sobre manipulação política no serviço.
Diante dos problemas, o ministro Cristiano Zanin prorrogou a votação até as 19h nas seções que ainda estavam abertas. A campanha de Flávio também havia pedido mais tempo, embora para municípios afetados por chuvas, alagamentos e falta de energia, enquanto Lula solicitou a ampliação nacional. Depois da derrota, Flávio anunciou que pediria a anulação da eleição, contestando a medida. A votação registrada depois das 17h, porém, foi muito menor do que a diferença entre os dois candidatos. Esse dado precisa acompanhar a discussão sobre a prorrogação para que uma controvérsia sobre sua execução não seja apresentada como prova de que ela decidiu o vencedor.
A liberdade de escolha esteve sob pressão também fora das seções eleitorais. Até a sexta-feira anterior à votação, o Ministério Público do Trabalho havia registrado 1.705 denúncias de assédio eleitoral no país. Nas plataformas digitais, mensagens internas tornadas públicas registraram restrições aos anúncios de Lula e recomendações indevidas de canais e perfis de Flávio. A Meta negou interferência eleitoral e tratamento preferencial, atribuindo os episódios a problemas com causas distintas.
A defesa das regras democráticas ajudou a explicar apoios que ultrapassaram a esquerda. Nomes de outro campo, como Joice Hasselmann, ex-líder do governo Jair Bolsonaro, declararam voto em Lula. Essas manifestações ilustram uma escolha possível numa eleição polarizada: manter diferenças com um candidato e, ainda assim, considerar sua vitória necessária para preservar o espaço em que essas diferenças possam continuar sendo discutidas.
A disputa também teve repercussão internacional. A proximidade de Flávio com Donald Trump e a proposta de apresentar o Brasil como fornecedor de terras raras aos Estados Unidos colocaram os interesses sobre recursos brasileiros no debate. Ao mesmo tempo, artistas como Mark Ruffalo, Tilda Swinton e Guillermo del Toro participaram de uma manifestação por Lula. Esses apoios ampliaram a visibilidade de uma eleição cujas consequências ultrapassam as fronteiras do país, embora a decisão tenha pertencido aos brasileiros que chegaram às urnas.
Na noite da vitória, Lula reconheceu que a eleição lhe ensinou lições, anunciou que pretende mudar a forma de governar e prometeu ampliar a participação popular nas decisões. Foi além: “Vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história desse país”. A promessa terá de encontrar forma num país que continua dividido, com demandas e interesses conflitantes. Ao assumir esse compromisso, porém, o presidente reconheceu que a quarta vitória também carrega uma expectativa de mudança.
A experiência dessas semanas oferece uma referência para essa mudança. Houve cidadãos dispostos a organizar uma viagem, enfrentar horas de deslocamento, oferecer o próprio carro e dedicar tempo a uma disputa que consideravam decisiva. Dar espaço a essa participação nas decisões de governo seria uma maneira concreta de reconhecer sua importância. Lula chega aos 81 anos com um feito que lhe pertence na história, acompanhado por muita gente que também terá motivos para contar onde estava e o que fez para participar daquela eleição.










