Entre a consciência política e a infância: o que estamos ensinando aos nossos filhos?

Manoela Maia McGovern

WhatsApp Image 2026-10-29 at 9.00.05 AM

A política está em toda parte. Está no preço dos alimentos, na qualidade da água que bebemos, nas escolas que nossos filhos frequentam, nos serviços públicos dos quais dependemos e nas oportunidades que terão ao longo da vida. Por isso, acredito que manter as crianças completamente afastadas da política não é o caminho. Elas precisam compreender, de acordo com a idade, que as decisões políticas têm consequências reais e que, quando crescerem, terão não apenas o direito de votar, mas também a responsabilidade de participar da construção da sociedade em que desejam viver.

Entretanto, existe uma diferença importante entre educar nossos filhos para a consciência política e transformá-los em espectadores da nossa indignação. Estamos ensinando nossos filhos a pensar ou apenas a sentir a mesma raiva que sentimos?

Quando a política entra em casa

Vivemos um período em que a política deixou de ser apenas um assunto discutido nos jornais ou durante as campanhas eleitorais. Ela invadiu as conversas familiares, os grupos de WhatsApp e as redes sociais, provocando, muitas vezes, rompimentos e hostilidade até entre pessoas próximas. É natural sentir indignação diante de injustiças e decisões que consideramos prejudiciais à sociedade. Também é legítimo criticar governantes, cobrar resultados e protestar. O problema começa quando a indignação se transforma em desprezo, quando os argumentos dão lugar aos insultos e quando passamos a tratar quem pensa diferente como inimigo.

As crianças observam muito mais do que imaginamos. Escutam nossos comentários, percebem nosso tom de voz e absorvem a maneira como tratamos aqueles que discordam de nós. Podemos dizer que defendemos a democracia, mas que mensagem transmitimos quando ridicularizamos alguém por seu voto ou desumanizamos quem fez uma escolha diferente da nossa? Quero que meus filhos saibam que podem discordar, questionar e lutar por aquilo em que acreditam. Mas também quero que entendam que ninguém precisa ser humilhado para que uma ideia seja contestada.

Sair da própria bolha também é uma forma de educação

Essa reflexão tem uma dimensão pessoal para mim. Cresci em um dos bairros mais caros da minha cidade, em um ambiente predominantemente branco e socialmente privilegiado. Na minha sala de aula, havia pouquíssima diversidade racial. Eu era o que, no Brasil, chamamos de “patricinha”. Não digo isso para condenar a menina que fui, mas para reconhecer que minha visão de mundo era limitada pelo ambiente em que cresci.

Fazer faculdade de jornalismo me ajudou a ter pensamento crítico, mas foi quando me mudei para Nova York que comecei a enxergar outras perspectivas de maneira mais profunda. Como latina e imigrante, também passei a vivenciar situações que antes não faziam parte da minha realidade. Aos poucos, compreendi que minha experiência não representava a de todos e que muitas desigualdades permanecem invisíveis para quem vive em uma realidade privilegiada. Não foi uma transformação instantânea, mas um processo de amadurecimento. Aprendi a questionar certezas, reconhecer privilégios e compreender melhor as dificuldades enfrentadas por pessoas negras, imigrantes, pessoas LGBTQIA+ e outros grupos sujeitos à discriminação. Essa experiência me ensinou que nem sempre percebemos as desigualdades enquanto estamos protegidos dentro de uma realidade que funciona para nós. Às vezes, precisamos sair do lugar que conhecemos, ouvir outras histórias e reconhecer que nossa experiência não é a medida de todas as experiências humanas.

É por isso que quero que meus filhos tenham a oportunidade de conhecer realidades diferentes das suas. Na escola, eles convivem com crianças de diferentes origens e com crianças com deficiência. Essa convivência tem um valor que vai além do conteúdo aprendido em sala de aula: oferece a oportunidade de compreender que a diversidade faz parte da vida e que ninguém deve ser definido por uma característica que o diferencie da maioria. Mas a convivência, por si só, não elimina o preconceito. A empatia também precisa ser ensinada e praticada. Acredito que crescer em ambientes inclusivos, aprender a ouvir e reconhecer a dignidade do outro são passos importantes para formar cidadãos mais conscientes.

O que estamos ensinando quando a política vira punição?

Recentemente, meus filhos também têm observado notícias e relatos que circulam sobre o cenário político brasileiro após as eleições. Entre eles estão denúncias de boicotes a negócios por causa da posição política de seus proprietários e relatos de demissões de funcionários por terem votado em determinado candidato. Essas situações precisam ser analisadas com responsabilidade, distinguindo casos comprovados de acusações ainda não verificadas. Ainda assim, elas levantam uma questão importante: até que ponto estamos dispostos a respeitar a liberdade de quem pensa diferente de nós? Meus filhos ficam indignados e têm dificuldade de compreender por que alguém prejudicaria o sustento de outra pessoa por causa de seu voto. Eles percebem a contradição entre defender as próprias convicções e tentar punir quem escolheu um caminho diferente.

A democracia não significa que todas as opiniões sejam corretas, nem que estejamos proibidos de criticar as escolhas dos outros. Temos o direito de discordar, protestar e até boicotar produtos por razões legítimas. Entretanto, quando a discordância se transforma em perseguição, intimidação ou retaliação injusta, precisamos discutir os limites éticos e, conforme o caso, legais dessas atitudes. Ninguém está acima de críticas, mas ninguém deveria ser tratado como inimigo simplesmente por ter votado de maneira diferente. E esse princípio precisa valer tanto para quem está no poder quanto para quem está na oposição.

Antes de compartilhar, precisamos aprender a verificar

Outra preocupação que considero especialmente importante para esta geração da era digital é a velocidade com que informações, acusações e notícias falsas circulam nas redes sociais. Muitas vezes, compartilhamos uma notícia porque ela confirma aquilo em que acreditamos, porque estamos decepcionados com um resultado eleitoral ou porque desejamos convencer alguém de que nosso candidato estava certo. Mas a intensidade de uma emoção não transforma uma afirmação em verdade.

Quantas pessoas realmente leram as propostas de governo dos candidatos em quem votaram? Quantas conhecem suas trajetórias, suas decisões anteriores e os resultados de suas gestões? Não precisamos concordar sobre tudo, mas precisamos estar dispostos a investigar antes de afirmar, questionar antes de acreditar e reconhecer quando não temos informações suficientes para formar uma opinião. É isso que procuro ensinar aos meus filhos: não compartilhem algo apenas porque parece convincente, porque veio de alguém de confiança ou porque confirma aquilo que gostariam que fosse verdade. É preciso verificar a origem da informação, procurar documentos e declarações originais, comparar fontes confiáveis e compreender o contexto.

No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é uma fonte importante para consultar informações oficiais sobre o processo eleitoral. Nos Estados Unidos, os órgãos eleitorais estaduais e locais oferecem informações sobre eleições e procedimentos de votação. Para outros assuntos, é importante recorrer a veículos jornalísticos confiáveis e buscar evidências independentes. Nenhuma fonte deve ser considerada infalível. Verificar informações significa comparar evidências, compreender o contexto e estar disposto a rever o próprio entendimento diante de novos fatos.

Na era digital, saber pesquisar e interpretar informações é tão importante quanto saber escrever ou fazer cálculos. Compartilhar conteúdo sem verificar sua veracidade pode prejudicar reputações, alimentar preconceitos e manipular a opinião pública. Quero que meus filhos saibam que não precisam ser os primeiros a compartilhar uma notícia. Mas precisam se preocupar em não contribuir para a propagação de uma mentira. Votar não é torcer por um time. É assumir uma responsabilidade.

Consciência política, sim. Roubar a infância, não.

Talvez uma das maiores dificuldades da política contemporânea seja o fato de que, para algumas pessoas, o candidato se torna parte da própria identidade. A partir daí, qualquer crítica é interpretada como um ataque pessoal, erros são justificados e informações desfavoráveis são descartadas antes mesmo de serem investigadas. Mas um candidato não é um time de futebol, e uma eleição não deveria exigir fidelidade incondicional. Podemos apoiar alguém e, ainda assim, reconhecer seus erros. Podemos votar em um candidato e continuar questionando suas decisões. A lealdade aos nossos princípios precisa ser mais importante do que a lealdade a qualquer pessoa que ocupe um cargo público.

Votei antecipadamente na eleição americanam e acompanho com atenção o cenário político dos dois países que fazem parte da minha vida. Acredito que o compromisso de um cidadão não termina quando as urnas são fechadas. Precisamos acompanhar as políticas implementadas, avaliar os resultados e cobrar coerência entre as promessas e as ações daqueles que elegemos. A escolha de um representante deve levar em conta suas propostas, sua trajetória, sua competência e seu compromisso com a democracia e o bem coletivo — não apenas seu sobrenome, seu grupo social ou a bolha de informações em que estamos inseridos.

Mas essa consciência não deve roubar a infância dos nossos filhos. Eles precisam de espaço para brincar, descobrir o mundo e desenvolver suas próprias ideias, sem sentir que precisam reproduzir as opiniões dos pais para serem aceitos. Se desejamos formar cidadãos capazes de pensar criticamente, precisamos permitir que façam perguntas desconfortáveis, questionem nossas opiniões e cheguem a conclusões diferentes das nossas. É muito mais fácil ensinar uma criança a repetir uma opinião do que ensiná-la a investigar, ponderar argumentos e construir seu próprio entendimento.

Não quero proteger meus filhos de toda realidade difícil. Quero prepará-los para enfrentá-la com informação, coragem e humanidade. Quero que reconheçam o preconceito, questionem as injustiças, identifiquem a manipulação e defendam seus direitos. Mas também quero que saibam ouvir e respeitar a humanidade de quem está diante deles. A educação política começa muito antes do dia em que uma pessoa recebe seu título de eleitor. Começa em casa, nos exemplos que damos, na maneira como lidamos com as diferenças e na disposição de reconhecer nossos próprios erros. Talvez a pergunta mais importante não seja apenas que país queremos deixar para nossos filhos, mas que tipo de cidadãos estamos formando enquanto tentamos construí-lo. Afinal, que sentido tem querer mudar o mundo se, dentro de casa, estamos ensinando nossos filhos a tratá-lo com menos humanidade?

 

(English)

Between political awareness and childhood: what are we teaching our children?

Politics is everywhere. It affects the price of the food we put on our table, the quality of the water we drink, the schools our children attend, the public services we rely on, and the opportunities they will have throughout their lives. That is why I do not believe keeping children completely removed from politics is the answer. They need to understand, in age-appropriate ways, that political decisions have real consequences and that, as they grow up, they will have not only the right to vote but also a responsibility to help shape the society they want to live in.

However, there is an important difference between raising politically aware children and turning them into spectators of our outrage. Are we teaching our children to think for themselves, or are we simply teaching them to feel the same anger we feel?

When politics enters our home

We live in a time when politics is no longer just a subject discussed in newspapers or during election campaigns. It has entered family conversations, WhatsApp groups, and social media, often creating divisions and hostility even among people who are close to one another. It is natural to feel outraged by injustice and decisions we believe harm society. It is also legitimate to criticize elected officials, demand accountability, and protest. The problem begins when outrage turns into contempt, when insults replace arguments, and when we start treating people who disagree with us as enemies.

Children observe far more than we realize. They hear our comments, notice our tone of voice, and absorb the way we treat people whose views differ from our own. We may say we believe in democracy, but what message do we send when we ridicule someone for their vote or dehumanize someone who made a different choice? I want my children to know that they can disagree, ask questions, and fight for what they believe in. But I also want them to understand that no one needs to be humiliated for an idea to be challenged.

Stepping outside our own bubble is also an education

This reflection is deeply personal for me. I grew up in one of the wealthiest neighborhoods in my city, in a predominantly white and socially privileged environment. There was very little racial diversity in my classroom. In Brazil, we have a word for the kind of privileged, somewhat spoiled girl I was: spoiled rich girl. I do not say this to condemn the girl I was, but to acknowledge that my worldview was limited by the environment in which I grew up.

Studying journalism helped me develop critical thinking skills, but it was moving to New York City that allowed me to see other perspectives more deeply. As a Latina and an immigrant, I also began experiencing situations that had previously been outside my reality. Gradually, I came to understand that my experience did not represent everyone’s and that many inequalities remain invisible to those living in privileged circumstances. It was not an overnight transformation, but a process of growth. I learned to question my assumptions, recognize my privileges, and better understand the challenges faced by Black people, immigrants, LGBTQ+ individuals, and other groups subjected to discrimination. This experience taught me that we do not always recognize inequality when we are protected by a reality that works in our favor. Sometimes, we need to step outside what we know, listen to other people’s stories, and recognize that our own experience is not the measure of every human experience.

That is why I want my children to have opportunities to experience realities different from their own. At school, they interact with children from different backgrounds, including children with disabilities. This experience offers lessons that go far beyond the classroom: it helps them understand that diversity is part of life and that no one should be defined by a characteristic that makes them different from the majority. Simply being around people who are different does not eliminate prejudice. Empathy must also be taught and practiced. But I believe that growing up in inclusive environments, learning to listen, and recognizing the dignity of others are important steps toward becoming more thoughtful and responsible citizens.

What are we teaching when politics becomes punishment?

Recently, my children have also been observing news and reports circulating about Brazil’s political climate following the elections. These include allegations of boycotts against businesses because of their owners’ political views and reports of employees being fired for voting for a particular candidate. Such situations must be examined responsibly, distinguishing verified cases from allegations that have not yet been substantiated.

Still, they raise an important question: How willing are we to respect the freedom of people who think differently from us? My children are outraged by these stories and struggle to understand why anyone would jeopardize another person’s livelihood because of how they voted. They recognize the contradiction between defending one’s own convictions and trying to punish someone for choosing a different path.

Democracy does not mean that every opinion is correct, nor does it mean we cannot criticize other people’s choices. We have the right to disagree, protest, and even boycott products for legitimate reasons. However, when disagreement turns into persecution, intimidation, or unjust retaliation, we need to consider the ethical and, where applicable, legal limits of such behavior. No one is above criticism, but no one should be treated as an enemy simply for voting differently. And this principle must apply to those in power as well as those in the opposition.

Before we share, we need to learn to verify

Another concern I have, especially for today’s digital generation, is how quickly information, accusations, and false news spread across social media. We often share a story because it confirms what we already believe, because we are disappointed with an election result, or because we want to convince someone that our candidate was right. But the intensity of an emotion does not make a claim true.

How many people actually read the platforms of the candidates they voted for? How many know their political records, previous decisions, and governing track records? We do not need to agree on everything, but we must be willing to investigate before making claims, question before believing, and acknowledge when we do not have enough information to form an opinion. That is what I try to teach my children: do not share something simply because it sounds convincing, comes from someone you trust, or confirms what you want to believe. Check the original source, look for primary documents and statements, compare reliable sources, and understand the context.

In Brazil, the Superior Electoral Court (TSE) is an important source of official information about the electoral process. In the United States, voters can consult official sources such as Vote.gov for voting information, state and local election offices for certified election results, the Federal Election Commission for campaign finance disclosures, and Congress.gov for legislation and recorded congressional votes. These resources help citizens look beyond campaign slogans and examine documented facts. Official records are an essential starting point, but responsible research also means comparing evidence, understanding context, and consulting credible independent journalism before drawing conclusions. No source should be considered infallible. Verifying information means comparing evidence, understanding context, and being willing to reconsider our conclusions when new facts emerge.

In the digital age, knowing how to research and interpret information is as important as knowing how to write or do math. Sharing unverified content can damage reputations, fuel prejudice, and manipulate public opinion. I want my children to understand that they do not need to be the first to share a story. They need to make sure they are not contributing to the spread of a lie. Voting is not about rooting for a sports team. It is about accepting responsibility.

Political awareness, yes. Stealing childhood, no.

Perhaps one of the greatest challenges in contemporary politics is that, for some people, a candidate becomes part of their identity. From that point on, every criticism feels like a personal attack, mistakes are justified, and unfavorable information is dismissed before it is even examined. But a candidate is not a sports team, and an election should not require unconditional loyalty. We can support someone and still acknowledge their mistakes. We can vote for a candidate and continue questioning their decisions. Loyalty to our principles must matter more than loyalty to any individual who holds public office.

I voted early in the U.S. election, and I follow the political landscape of both countries that are part of my life. I believe a citizen’s responsibility does not end when the polls close. We must monitor the policies that are implemented, evaluate their results, and hold elected officials accountable for the gap between their promises and their actions. Choosing a representative should involve examining their proposals, track record, competence, and commitment to democracy and the common good—not simply their last name, social circle, or the information bubble in which we live.

But political awareness should not rob our children of their childhood. They need room to play, discover the world, and develop their own ideas without feeling that they must repeat their parents’ opinions to be accepted. If we want to raise critical thinkers, we must allow our children to ask uncomfortable questions, challenge our views, and reach conclusions different from our own. Teaching a child to repeat an opinion is much easier than teaching them to investigate, weigh arguments, and develop their own understanding.

I do not want to shield my children from every difficult reality. I want to prepare them to face it with knowledge, courage, and humanity. I want them to recognize prejudice, question injustice, identify manipulation, and stand up for their rights. But I also want them to know how to listen and respect the humanity of the person standing before them. Political education begins long before someone receives their first voter registration card. It begins at home, in the examples we set, in the way we handle differences, and in our willingness to acknowledge our own mistakes. Perhaps the most important question is not simply what kind of country we want to leave our children, but what kind of citizens we are raising as we try to build it. After all, what is the point of wanting to change the world if, inside our own homes, we are teaching our children to treat it with less humanity?

Termos

Compartilhe