Reconstruir

Zenita Almeida

A vida é uma caixinha de incertezas que surpreende a cada momento pela imprevisibilidade do que poderá acontecer amanhã.  Tudo o que parece muito certinho, rotineiro, hábitos e formas que carregamos anos a fio, num simples piscar de olhos muda completamente o rumo que conduz o futuro que sábia ou intuitivamente projetamos como o melhor para sempre. Esconder de si mesmo fracassos, derrotas, frustrações, infelicidade nos relacionamentos e no trabalho é determinante para tantas desditas e sofrimento. Repensar e reconstruir uma nova forma de viver, ainda que a mudança exija sacrifícios por mexer com toda a estrutura física, mental e psicológica. Não há outra saída para quem quer deitar a cabeça no travesseiro e dormir em paz consigo.

Chega um momento em que é preciso mudar. Todos estamos passivos de, algum dia, assumir uma postura, de assumir uma virada espetacular de atitudes e comportamentos. O tempo é o psicanalista que diagnóstica neurose, traumas, fobias, complexos, pulsões, conflitos, transtornos. E quem não os tem? Não importam convicções, regrinhas que norteiam a conduta de vida, a ponto de sufocar, ampliando a ansiedade pelo temor de não seguir fielmente a cartilha do bem e do mal, constituição do ontem, hoje e do futuro.

Dai vem aquele questionamento que tumultua todo o convencimento do rigorosamente correto porque foi catecismo que aprendemos nos ensinamentos do cotidiano desde a infância e adolescência. O passado esmagador, igualmente repressor, não pode ser a bíblia que proíbe a revisão de dogmas e juízo. Os erros de comportamento e atitudes de outrora podem pautar agora uma nova forma de viver, sentir, pensar e agir.

É preciso coragem e determinação dos viciados químicos que sofrem e como sofrem para se manterem abstêmios do mal que a droga lhes faz. Idade não é barreira para renovar o que vem de dentro para fora. É possível reconstruir uma vida nova e para isso não precisa ter sofrido uma catástrofe, infortúnio, doença.

Cansamos de ouvir falar que a doença é a caixinha mágica que alerta as pessoas para repensarem seu propósito de transmutar-se para melhor. Tão grave quanto a mais grave das doenças físicas é a doença da alma martirizada pela dubiedade, enlouquecendo o cérebro e matando a esperança de um viver prazeroso. O reconhecimento de que nem tudo está definitivamente perdido, que ainda há tempo de reconstruir já um gostinho de vitória, aquele sabor de recomeçar sem complexo de que agora é tarde demais.

“Não importa onde você parou…. em que momento da vida você cansou…O que importa é que sempre é possível e necessário recomeçar”. Recomeçar é da uma nova chance a si mesmo… É renovar as esperanças” – Texto do poeta Carlos Drummond de Andrade, em uma de suas tantas obras escritas no século 20.

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