O Rio expõe o Brasil

Andre Cesar

palacio Rio menor

O Rio de Janeiro deixou de ser apenas uma crise local. Virou um retrato do que o país tolera quando as instituições falham. O que está em jogo no estado não se limita ao seu futuro político. Está nas mãos do Supremo Tribunal Federal e antecipa um tipo de país possível.

A sucessão de ex-governadores presos, condenados ou afastados deixou de ser uma anomalia para se tornar padrão. Não é mais sobre nomes. É sobre um sistema que se organizou para desviar recursos, financiar poder e negociar sobrevivência política com quem controla territórios armados. O Rio deixou de ser exceção. Virou retrato.

A Assembleia Legislativa deixou de ser apenas espaço de disputa política. Em investigações recentes, aparece como ponto de contato entre Estado e crime organizado. Os casos que envolvem parlamentares, facções e milícias não indicam episódios isolados. Revelam um modelo em que mandato, orçamento e influência territorial viram moeda de troca.

O colapso institucional ganhou forma concreta quando o estado chegou a ter mais de um comando simultâneo em um único dia. Não foi só uma crise de governabilidade. Foi a evidência de que a linha formal de sucessão já não sustenta, sozinha, a legitimidade do poder.

É nesse cenário que o julgamento no STF deixa de ser detalhe jurídico e vira o eixo da crise. Decidir entre eleição direta ou indireta não é apenas definir um rito. É escolher como se tenta reorganizar um estado em colapso. Uma eleição indireta, conduzida por um Legislativo sob suspeita, pode reforçar a sensação de continuidade. Uma eleição direta devolve a decisão ao eleitor, mas não resolve, por si, o problema estrutural de um Estado atravessado por interesses políticos e criminosos.

O ponto central é outro. O Rio chegou a um estágio em que trocar o comando não garante mudança. Pode apenas reorganizar as mesmas forças.

O risco imediato é a eleição tampão funcionar como ajuste de curto prazo, capaz de estabilizar a superfície sem alterar a lógica de fundo. O risco seguinte é mais grave: normalizar a convivência entre instituições formais e estruturas paralelas de poder, com o Estado atuando como intermediário, e não como autoridade.

O que está em julgamento no STF, portanto, não é só o modelo de eleição. É a capacidade de o sistema político produzir uma saída que não seja apenas a repetição da crise.

O Rio sempre funcionou como vitrine do país. Exporta cultura, imagem e, agora, um alerta. Quando corrupção sistêmica, crime organizado e fragilidade institucional deixam de ser exceção e passam a organizar o poder, o problema deixa de ser regional.

O Brasil olha para o Rio como quem se vê no espelho. E, desta vez, o reflexo não permite desviar o olhar