O famoso ciúme

O ciúme “é um sentimento doloroso, causado por exigência de um amor inquieto e pelo desejo de possuir a pessoa amada”, segundo o dicionário Aurélio. Durante os 10 anos que estudei Freud, num estudo atento numa instituição voltada ao estudo da psicanálise  de XXIII volumes dos escritos da edição standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, acompanhados de explanações e interpretações dos textos, também abertos a discussões,  lembro que a primeira vez que Freud se dá conta do ciúme aconteceu quando sua mãe o deixa no berço, talvez aos 3 anos de idade, e segue para o quarto do casal, para dormir com o seu pai. Ele se sentiu então preterido e com muita raiva do genitor.

Ainda procurando subsídios como base desse texto, achei no Freud Dictionary of Psychoanalysis que a seguinte explicação, segundo minha interpretação, o ciúme é um estado que nos afeta como o luto que pode ser descrito como normal.  Se alguém parece ser desprovido dele, a justificativa é que o sentimento está sob severa repressão e consequentemente pertence a instância do inconsciente. Também em nome do ciúme, assim como em nome do amor, foram escritas grandes obras da música e da literatura universal, que terminam em tragédias.

O ciúme intenso, ainda de acordo com o Freud Dictionary of Psychoanalysis, na instância da anormalidade, revela-se em três estágios que podem ser descritos como: 1) competitividade normal, 2) projeção, 3) ciúmes dilusional. O ciúme como competitividade normal faz-me lembrar do Antigo Testamento, de Caim e Abel: um irmão mata o outro por não suportar a dor inquieta da preferência dos pais por Abel, que era considerado o homem do bem, que tudo fazia para agradar a Deus e aos pais. Parece-me o primeiro assassinato conhecido da história da humanidade.

O ciúme por projeção, também definido como ciúme paranóide, consiste em uma psicose caracterizada pelo desenvolvimento de um pensamento delirante crônico, lúcido e sistemático, provido de uma lógica interna própria, sem necessariamente apresentar alucinações, mas se apresentando como uma desconfiança irreal. Como resultado do ciúme como projeção, temos como exemplo a violência doméstica e o feminicidio, que anteriormente no código penal brasileiro e nos tribunais era descrito como crime passional, onde o indivíduo era inocentado pelo crime cometido, com a desculpa ou justificativa de que teria “perdido a cabeça” e consequentemente entendido como descontrole das suas emoções.

O ciúme por projeção ficou, então, conhecido por ser um transtorno mental, caracterizado muitas vezes como um delírio, capaz de transformar o indivíduo num doente mental momentaneamente. O ciúme dilusional ou ciúme ilusório, geralmente contém uma verdade velada, ou uma verdade escondida, oculta como uma máscara, que retorna do inconsciente para o consciente, de uma maneira distorcida e mal entendida, com idéias compulsivas aparentemente como uma ilusão ou falsa realidade. Em tempo, já existem novas leis que responsabilizam o/a ciumento(a) pelo crime de matar o/a parceira por ciúmes.

Quanto ao que fazer para controlar o temperamento impulsivo do(a) ciumento(a) a minha recomendação é terapia. Através de um tratamento sério psicoterapêutico, vamos descobrir e lembrar das primeiras experiências infantis que nos tornaram ciumentos. Que perda teria sido essa ou essas, na nossa primeira infância tão dolorosa para nossa sobrevivência que precisamos esconder no nosso inconsciente, juntando todas as emoções provenientes dessa perda e as colocando bem escondidas na instância do nosso inconsciente?

É como alguém que varre o chão e coloca a sujeira embaixo do tapete, pensando assim que já a teria eliminado para o resto da vida, mas de repente, ao surgimento de qualquer estímulo, metaforicamente falando, ao surgimento de qualquer ventania, o tapete se enrola ou se desloca e eis que toda a sujeira se espalha num total descontrole.

Finalizando, não encontrei nenhuma explicação positiva para entender o ciúme, quais fatos o motivaram, provocados por fantasias ou realidades. Ao compreendermos os fatos que aconteceram, conseguiremos desatar o nó que está em nosso inconsciente. Isso nos fortalecerá e nos ajudará a lidar melhor conosco mesmo, nos conscientizando das nossas qualidades na relação com os outros, nos tornando mais seguros.

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