Desde cedo aprendi que era preciso persistir para fazer as coisas darem certo e realizar meus sonhos. Quando iniciei minha carreira no jornalismo, fui, aos poucos, reforçando essa crença, principalmente ao entrevistar especialistas em comportamento e líderes sempre prontos a ensinar suas receitas de sucesso.
Ao longo do tempo, esse conceito se incrustou em mim de tal forma que, muitas vezes, ficava obcecado por algo e insistia ao extremo, mesmo sem qualquer evidência de que poderia obter um resultado satisfatório.
Mas, com o passar dos anos, os tombos e o amadurecimento me levaram a rever essa postura. Hoje eu diria que desistir está se tornando uma habilidade para sobreviver em um mundo de excessos. Infelizmente, a cultura em que vivemos transformou a persistência em uma virtude absoluta. As redes sociais estão cheias de gente tentando nos convencer de que nunca se deve desistir. E mais: se você não consegue o que planejou, a responsabilidade é só sua, porque não tentou o suficiente. Mas vem cá, sejamos honestos: a gente sabe que não é bem assim.
Persistir a qualquer custo é mais danoso do que parece. Se vemos a desistência como fracasso, é quase certo que continuaremos a investir tempo, dinheiro e energia apenas porque já investimos demais. Eu mesmo já insisti em várias ideias, projetos e relações, não porque ainda tivessem sentido, mas porque temia que a desistência pudesse soar como uma derrota.
Quase tudo o que aprendi sobre sucesso dizia para nunca desistir. Hoje, olhando em retrospectiva, acredito que esse talvez tenha sido um dos conselhos mais controversos que recebi. Ao longo dos últimos anos, fui aprendendo sobre a importância de abandonar o que já não faz sentido. E acrescente-se à lista: desistir de mudar o outro; desistir de se comparar; desistir de dizer sim a tudo; desistir de querer se encaixar em padrões. E também desistir da autossabotagem, da autocrítica permanente e de viver preso ao passado ou sempre ansioso pelo futuro.
Dizer não, rever o percurso e abandonar o que já não funciona podem ser decisões libertadoras. Quando colocamos isso em prática, é como retomar as rédeas da própria vida, entender os limites e prestar atenção ao que realmente compensa. Eu diria que desistir não é o contrário de persistir, mas a capacidade de reconhecer o que não vale mais a pena. Pense comigo: quantas coisas ainda nos tiram o sono e engolem nossa energia vital, mas poderiam simplesmente ser deixadas para trás?
Talvez a pergunta não seja mais até quando somos capazes de insistir, mas até quando vale a pena. Há coisas que não precisam de mais esforço, mais tempo ou mais uma tentativa. Precisam apenas ser deixadas para trás.
Fabiano F. é jornalista e autor de livros como “Outro Lugar de Mim” (Ed. Labrador). Saiba mais sobre o livro: linktr.ee/fabianoescritor Siga o autor nas redes sociais: @fabianoautor










