Artista visual alagoano constrói uma poética que atravessa corpo, ancestralidade, ecologia e arquitetura, criando obras que investigam novas formas de existir e habitar o mundo
A arte de Lucas Cardoso nasce da escuta. Escuta das memórias familiares, dos territórios que o constituem, das histórias que correm o risco de desaparecer e dos ensinamentos presentes na natureza. Artista visual multimídia, Lucas desenvolve uma produção que transita entre escultura, performance, pintura e vídeo, criando um universo poético em que corpo, território, espiritualidade e ecologia se entrelaçam.
Nascido em Maceió, em 1994, sua formação inicial foi em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Alagoas, experiência que influenciou profundamente seu modo de pensar os espaços, as construções e as relações. Durante a graduação, realizou intercâmbio em Fine Arts na Alemanha, na Hochschule für Kunst Design und Populäre Musik, em Freiburg, onde aprofundou sua prática artística. Posteriormente, especializou-se em Práticas Culturais Populares pelo Museu Théo Brandão e pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFAL.
Para Lucas, seu fazer artístico surgiu como uma necessidade de compreender sua própria existência e sua relação com o mundo.
“A aproximação (ou a necessidade) com a arte sempre existiu, mas acredito que a partir do interesse em observar as formas de existência, os territórios e as relações entre diferentes seres foi quando comecei a especular minha linguagens artísticas. Aos poucos, a prática artística tornou-se esse espaço de investigação sobre a natureza, cultura, espiritualidade e as diversas maneiras de habitar o mundo, talvez como uma forma de entender minha própria humanidade e minha relação com as vidas ao meu entorno”, relatou na abertura da entrevista. 
A memória como ponto de partida
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória aconteceu quando sua avó começou a enfrentar o processo de perda da memória. O episódio despertou no artista uma profunda reflexão sobre o desaparecimento das histórias familiares e dos saberes transmitidos entre gerações.
“Durante um período em que minha avó adoeceu e começou a perder a memória, percebi que, junto com esse processo, parte da história da minha família também começava a se diluir com o tempo, correndo o risco de desaparecer pelo esquecimento. Essa experiência despertou em mim uma necessidade de mergulhar na prática artística não apenas como expressão, mas como pesquisa, escuta e construção de memória”, relata Lucas.
A partir dessa experiência, Lucas voltou seus olhares para o bairro do Rio Novo, em Maceió, onde sua família possui raízes profundas. O contato com a Laguna Mundaú, o sururu, as paisagens do entorno e as manifestações culturais populares passou a alimentar diretamente sua produção artística.
“Entendo que o despertar para a prática artística aconteceu a partir de uma experiência de perda, mas também de descoberta. Perceber a possibilidade de desaparecimento de uma história fundamental para minha construção de identidade me levou a criar estratégias para guardar, transformar e reimaginar essas memórias. A arte passou a ser uma forma de criar conexões entre corpo, território, ancestralidade, natureza e as diferentes vidas que coexistem nesse espaço”, nos explica.
Arquiteturas para vestir o corpo
Atualmente, a pesquisa de Lucas Cardoso se destaca pela criação de esculturas que ele define como “arquiteturas para vestir o corpo”. Inspiradas em estruturas encontradas na natureza.
“Tenho desenvolvido esculturas que concebo como arquiteturas para vestir o corpo, estruturas que se apresentam como próteses, armaduras ou carapaças inspiradas em estratégias de proteção, abrigo e adaptação encontradas na natureza, como casulos, conchas, ninhos, espinhos e outras formas desenvolvidas nesse processo de evolução das espécies”, que são verdadeiras experiências visuais.
Os materiais utilizados carregam forte vínculo com os territórios por onde passa sua pesquisa. Barro, pigmentos minerais, galhos, folhas, penas e cabelos são incorporados às obras não apenas como matéria-prima, mas como elementos que carregam memória, ancestralidade e identidade.
Segundo o artista, não existem fronteiras rígidas entre suas linguagens.
“Pintura, escultura, performance e vídeo funcionam como extensões umas das outras e frequentemente coexistem dentro de uma mesma série de trabalhos. Muitas vezes utilizo a mesma terra para produzir pigmentos que aparecem nas pinturas, para modelar esculturas ou para compor ações performáticas. Dessa forma, as linguagens se retroalimentam e contribuem para a construção de um mesmo universo poético, no qual corpo, natureza, arquitetura e memória estão continuamente em diálogo”, relata.
Corpos híbridos e novas formas de existir
Ao longo dos anos, a pesquisa de Lucas passou por um processo de amadurecimento que aproximou temas inicialmente vistos como separados. Questões relacionadas à cultura popular, espiritualidade, gênero, sexualidade, natureza e arquitetura passaram a integrar um mesmo campo de investigação.
“Hoje, minha pesquisa acontece justamente nesse espaço de encontro, onde essas fronteiras se tornam mais fluidas. Tenho buscado criar trabalhos em que corpo, território, memória, matéria e ambiente não aparecem como elementos separados, mas como partes de um mesmo sistema”, e o resultado desse trabalho aguça os sentidos de quem vê.
Essa visão se reflete em obras que apresentam corpos híbridos, organismos imaginários e estruturas orgânicas que desafiam as divisões tradicionais entre humano e não humano.
“A natureza passou a ser compreendida por mim não apenas como paisagem ou referência visual, mas como uma força ativa, um campo de relações e aprendizados sobre adaptação, proteção, sobrevivência e transformação”, nos explica.
Em diálogo exclusivo para BM Magazine, Lucas traz que os trabalhos mais recentes incluem a criação de corpos híbridos, arquiteturas orgânicas e estruturas que dialogam com formas encontradas em outros seres vivos. O artista conta que a escultura, a performance, a pintura e outros meios passam a funcionar como maneiras diferentes de acessar esse mesmo universo, onde as fronteiras entre humano e não humano, natureza e cultura, corpo e ambiente estão em constante negociação.
Influências entre arte, ciência e espiritualidade
O imaginário criativo do artista é construído a partir de múltiplas referências. Entre elas estão as culturas populares, a arquitetura, a biologia, a ecologia e a espiritualidade.
A vivência no Candomblé ocupa um lugar central nesse percurso.
“A vivência no terreiro foi fundamental para minha compreensão de que espiritualidade, ritual e arte não são campos separados, mas formas de produzir conhecimento, memória e relação”.
Lucas também destaca a influência de pensadores como Ailton Krenak e Brigitte Baptiste, além de artistas contemporâneos como Rodrigo Braga, Uýra Sodoma e Castiel Vitorino.
Arte como espaço de encontro
Mais do que apresentar respostas, Lucas busca criar experiências que provoquem reflexão sobre o lugar que ocupamos no planeta e as relações que construímos com outras formas de vida.
“Busco criar espaços de encontro e reflexão sobre as relações que estabelecemos com o mundo ao nosso redor, principalmente sobre a forma como compreendemos a natureza e o nosso lugar dentro dela”, e ele cria novos universos por meio de suas obras.
Em suas obras, proteção e pertencimento aparecem como temas recorrentes.
“As estruturas que desenvolvo, partem de uma reflexão sobre proteção e pertencimento. Elas podem ser compreendidas como extensões do corpo, mas também como símbolos das formas que criamos para sobreviver, nos expressar e ocupar determinados espaços”.
O artista também enfatiza a importância da diversidade como potência criativa e política.
“Penso a diversidade dos corpos humanos como continuidade da própria diversidade da vida: múltipla, mutável e em constante transformação. Assim como acontece nos ecossistemas, acredito que a existência se fortalece justamente através da diversidade”.
Maceió como território de criação
Embora dialogue com temas universais, a produção de Lucas mantém uma conexão profunda com Alagoas. A Laguna Mundaú, o Rio Novo, os manguezais, as práticas culturais e os saberes comunitários aparecem constantemente em sua obra.
“Entendo o território como algo que nos constitui. Ele não está separado de nós: participa da maneira como sentimos, lembramos, criamos e nos relacionamos com o mundo.”
Para o artista, criar é também um exercício de escuta.
“Criar a partir desse território é também uma forma de reconhecimento. É buscar perceber as histórias que existem nos ambientes, nas matérias e nas pessoas, entendendo que uma paisagem nunca é apenas uma paisagem. Ela carrega memórias, relações e diferentes formas de vida que coexistem nela.”
Novos caminhos
Atualmente, Lucas aprofunda pesquisas sobre as relações entre arquitetura, corpo e ecologia. Seu interesse se volta cada vez mais para os impactos das ações humanas sobre o ambiente e para os materiais que revelam essas transformações.
O vidro surge como uma das novas possibilidades de investigação.
“Tenho pensado sobre essa matéria não apenas pelas suas características físicas, mas pelo que ela revela sobre nossa relação com os recursos do planeta, sobre permanência, descarte e memória.”
O objetivo permanece o mesmo: construir pontes entre conhecimentos ancestrais, ecologia e formas contemporâneas de habitar o mundo.
“Bichas d’água”: a síntese de uma trajetória
Se precisasse apresentar seu trabalho por meio de uma única obra, Lucas escolheria a série Bichas d’água, desenvolvida desde 2023.
A pesquisa reúne esculturas, pinturas e performances inspiradas na anatomia dos moluscos e em estruturas como conchas e carapaças, criando corpos híbridos que questionam noções de identidade, gênero e pertencimento.
“O interesse está justamente nesse processo de desfiguração e reconfiguração: não como uma perda da identidade, mas como uma abertura para pensar outros modos de ser, outros corpos possíveis e outras relações com o ambiente.”
Ao criar esses organismos imaginários, Lucas Cardoso reafirma uma das questões centrais de sua trajetória: compreender que a vida é feita de transformação constante e que, entre memória, natureza e imaginação, talvez existam infinitas formas possíveis de existir.
Para acompanhar o trabalho do artista:
Instagram: @lucas_____cardoso
E-mail: lucardoso.ramo@gmail.com

“Bichas d’água”: a síntese de uma trajetória







