Huck, o Bolsa Família e o preconceito que nunca sai de cena

Andre Cesar

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Luciano Huck tentou explicar a repercussão dizendo que sua fala ocorreu num evento fechado e que o trecho circulou fora de contexto. Mas o debate que surgiu não depende do ambiente em que foi dito. Depende da ideia. Porque o argumento não é novo. Há décadas parte da elite brasileira repete que programas de transferência de renda criariam acomodação e reduziriam o estímulo ao trabalho. A provocação parece intuitiva. Só encontra dificuldade quando confrontada com a realidade.

Em 2024, mais de 1,3 milhão de famílias deixaram o Bolsa Família porque aumentaram sua renda acima do limite do programa. E estudos que acompanham o programa ao longo dos anos chegam repetidamente a uma conclusão incômoda para seus críticos: a maioria dos beneficiários não permanece nele indefinidamente e não há evidência consistente de que a transferência de renda reduza a disposição para trabalhar.

Isso não significa que o programa seja perfeito. Nem deveria ser tratado como política imune a críticas. A pergunta sobre como criar portas de saída é legítima. Mas ela também não é ignorada pelo desenho atual do programa. Existe cruzamento de dados, atualização cadastral, acompanhamento de frequência escolar e vacinação, mecanismos de transição para evitar perda abrupta do benefício e integração crescente com qualificação e inserção produtiva.

Talvez o ponto mais desconfortável dessa discussão esteja em outro lugar. Quando o Estado parcela dívidas tributárias bilionárias, cria programas de refinanciamento para empresas inadimplentes, oferece crédito subsidiado ou incentivos econômicos para determinados setores, quase ninguém pergunta se isso gera acomodação ou desestimula eficiência. Costuma-se chamar isso de política econômica, recuperação de atividade ou incentivo ao crescimento. Mas quando o recurso chega na ponta, para impedir que uma família entre na fome ou abandone a escola, surge imediatamente a suspeita da dependência.

Curioso como parte do Brasil chama de incentivo quando o Estado socorre quem produz lucro e de dependência quando socorre quem está tentando sobreviver. Existe fraude? Fiscalize. Existe uso indevido? Corte. Existe município excessivamente dependente? Desenvolva economia, gere emprego, atraia investimento. O que não parece razoável é transformar casos isolados em retrato nacional e ignorar que, para a maior parte das famílias, o Bolsa Família nunca substituiu trabalho. Funcionou como travessia.

Quem viveu insegurança alimentar sabe disso. O benefício não compra conforto. Compra tempo. Tempo para procurar emprego. Tempo para continuar estudando. Tempo para não abandonar filhos ou aceitar qualquer condição para sobreviver. Talvez por isso tantos relatos de quem passaram pelo programa terminem do mesmo jeito: não com agradecimento por depender do Estado, mas com orgulho de não precisar mais dele. Porque quase ninguém sonha em viver com R$ 600 por mês. O que muita gente sonha é sobreviver tempo suficiente para seguir em frente. E quando isso acontece, não é acomodação. É mobilidade.