Um dos meus gêneros preferidos no cinema é o drama, especialmente quando inspirado em histórias reais. Costumo aprender muito com esses filmes: coloco-me no lugar das personagens, avalio o que faria e como me sentiria diante das situações apresentadas. Essa mesma dinâmica se repete na literatura: meus livros favoritos são memórias e biografias. Sou grato aos autores que me colocam em contato com a vida como ela é, a partir de perspectivas diversas.
Recentemente, um filme reforçou esse apreço. Depois de assistir a I Swear (Sony Pictures Classics), saí do cinema com várias perguntas e reflexões. A produção acompanha a trajetória de um homem com Síndrome de Tourette (condição caracterizada por tiques e xingamentos involuntários) e os desdobramentos, em sua maioria dolorosos, que ela impõe ao longo da vida. Uma história que me tocou mais do que eu esperava.
O filme me levou a revisitar conceitos que têm surgido com frequência em conversas com amigos e colegas de trabalho: tolerância, empatia e aceitação. Pode soar óbvio dizer que o mundo carece dessas atitudes. Ainda assim, o que se observa é algo mais preocupante: não apenas a ausência delas, mas o avanço de seus opostos. Intolerância, indiferença e rejeição parecem florescer com facilidade nas redes sociais e, cada vez mais, se manifestam na vida fora das telas. Ou talvez seja o contrário: cada vez mais, a vida real e a virtual estão se fundindo.
Fico me perguntando se temos exercitado a tolerância, a empatia e a aceitação de maneira efetiva, a fim de cultivarmos melhores relacionamentos com os outros e com nós mesmos. Embora os três comportamentos sejam muito importantes, talvez o ideal seja mirar na aceitação, já que ela abrange os outros dois de forma mais ampla. Vamos pensar no que significa cada um deles:
Tolerância
É o nível mais básico nas relações sociais. Você suporta a existência do outro, mesmo discordando ou se incomodando. É óbvio que tolerar é muito melhor do que criticar e rejeitar, mas, ainda assim, há um certo distanciamento emocional. Quem tolera acaba ignorando que o outro também pode estar certo em suas razões e ações.
Empatia
A empatia exige certo movimento interno. Ela acontece quando tentamos compreender a experiência do outro, imaginando como ele se sente e por que age daquela forma. Com certeza, é um nível mais elevado de se relacionar, reconhecendo o outro como um igual.
Aceitação
A aceitação, por sua vez, atinge um estágio mais profundo. Não significa concordar com tudo, mas sim reconhecer o outro como legítimo, sem a necessidade de corrigir, julgar ou resistir constantemente. E isso pode ser muito desafiador. Porém, quando acontece, nos eleva a um grau nobre de humanidade.
Diante dessas breves definições, proponho uma reflexão: o que você tem praticado enquanto cidadão e nos relacionamentos pessoais e profissionais? Você “aguenta” (tolerância), “entende” (empatia) ou “reconhece” (aceitação) o outro como ele é?
Volto ao filme citado acima para observar que não é a condição do personagem que mais incomoda, mas sim a forma como as pessoas lidam com ela. Transpondo a história para situações que vivemos no dia a dia, arrisco dizer que, se não vigiarmos a nós mesmos, é fácil cair nos meandros do julgamento, do preconceito e do desprezo. Um ótimo exercício é avaliar o quanto estamos disponíveis para conviver com o que não controlamos, não entendemos ou simplesmente não escolheríamos para nós. E essa é uma tarefa para a vida toda. Torço para que pratiquemos mais a empatia e aceitação, entendendo que esse é o caminho para não perdermos o que ainda há de humano em nós.
Fabiano F. é jornalista e escritor de livros como “Outro Lugar de Mim” (Ed. Labrador). Saiba mais sobre o livro: linktr.ee/fabianoescritor Siga o autor nas redes sociais: @fabianoautor










