Um estudo conduzido por pesquisadores ligados ao Centro de controle e prevenção de doenças dos EUA (CDC) indicou que as vacinas contra a Covid-19 reduziram significativamente o risco de hospitalizações e visitas ao pronto-socorro entre adultos nos Estados Unidos durante o outono e o inverno passados. Segundo o estudo, a imunização teria diminuído aproximadamente pela metade a probabilidade de casos graves que exigem atendimento emergencial.
Apesar da relevância dos achados, o estudo não chegou ao público por meio do principal canal científico da agência. A publicação foi barrada no relatório semanal de morbilidade e mortalidade (MMWR) do CDC, decisão que gerou questionamentos dentro da comunidade científica. De acordo com fontes internas, o atual diretor do CDC, Jay Bhattacharya, também à frente do Instituto Nacional de Saúde (NIH), teria bloqueado a divulgação. A recusa ocorreu mesmo após o estudo ter passado por revisões internas e estar programado para publicação.
O Departamento de Saúde e Serviço Social dos EUA (HHS) confirmou oficialmente a rejeição. Em nota, o órgão afirmou que “relatórios científicos são rotineiramente revisados em múltiplos níveis para garantir que atendam aos mais altos padrões antes da publicação” e que foram identificadas “preocupações quanto à abordagem metodológica utilizada para estimar a eficácia da vacina”. O estudo utilizava um modelo amplamente adotado em pesquisas epidemiológicas, conhecido como “teste negativo”, que compara o estado vacinal de pacientes com sintomas semelhantes — diferenciando aqueles que testam positivo para uma infecção dos que testam negativo. Esse método é considerado padrão para medir a eficácia de vacinas contra vírus respiratórios, incluindo influenza e o vírus sincicial respiratório (RSV).
Os dados analisados vinham da rede VISION, uma colaboração liderada pelo CDC que reúne registros eletrônicos de saúde de nove sistemas hospitalares nos Estados Unidos, permitindo acompanhar a efetividade de vacinas em diferentes faixas etárias ao longo do tempo. Especialistas ouvidos criticaram a decisão. A epidemiologista Fiona Havers, que deixou o CDC após mudanças na política de vacinação, afirmou que o método utilizado é consolidado e amplamente aceito. Para ela, a rejeição levanta preocupações sobre possível interferência política em processos científicos da agência. Outra ex-dirigente do CDC, Deb Houry, também destacou que a metodologia era apropriada e já empregada em diversos estudos anteriores. Segundo ela, rejeições em estágios tão avançados do processo editorial são raras.
O episódio ocorre em meio a um contexto mais amplo de mudanças na política de vacinação conduzidas pelo secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr.. Nos últimos meses, o departamento revisou recomendações sobre vacinas contra Covid-19, incluindo a retirada de indicações amplas para certos grupos e a adoção de decisões clínicas compartilhadas entre médicos e pacientes. Durante audiência no Congresso, Kennedy negou que suas posições tenham influenciado a queda nas taxas de vacinação, afirmando que a responsabilidade recai sobre a hesitação de parte da população. A controvérsia em torno do estudo rejeitado evidencia tensões crescentes entre evidências científicas, políticas públicas e decisões institucionais — um cenário que continua a moldar a resposta à Covid-19 nos Estados Unidos.










