Bets: o império do vício que transforma perda em lucro bilionário

Andre Cesar

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Ganhar dinheiro sem sair de casa, mudar de vida com um clique, viver como um milionário. É essa a fantasia vendida, dia após dia, nas telas dos celulares e computadores dos brasileiros. Um País inteiro foi seduzido pelas promessas de sorte e lucro imediato das apostas on-line — as famigeradas “bets” — que hoje movem bilhões e destroem silenciosamente a vida de milhões.

O avanço foi facilitado pela regulamentação das chamadas apostas de quota fixa, em 2023. Uma brecha legal que permitiu a operação de empresas estrangeiras no Brasil sob o rótulo de “loterias”, embora funcionem, na prática, como jogos de azar. Resultado? Mais de 22 milhões de brasileiros apostando, sem limites ou controle, e acreditando — como mandam os influenciadores — que o próximo clique pode mudar tudo.

O impacto é devastador. Entre os apostadores, estão milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade. Só no ano passado, beneficiários do Bolsa Família gastaram cerca de R$ 3 bilhões nessas plataformas — algo próximo de 20% do orçamento mensal do programa. O Governo federal, alarmado, passou a discutir o bloqueio de CPFs desses beneficiários.

Mas não é só o dinheiro que se perde. É também a saúde mental, os vínculos familiares, a autoestima. Clínicas e profissionais da saúde relatam um crescimento expressivo de casos de ludopatia — o vício em jogos. Os sintomas lembram a dependência química: ansiedade, depressão, impulsividade, ideias suicidas. Em várias regiões do País, há registros de pessoas que tiraram a própria vida após se endividarem em plataformas de apostas. Um desespero que nem sempre aparece nas estatísticas — mas que se repete com frequência preocupante.

Enquanto isso, há quem lucre. Influenciadores digitais, alguns com dezenas de milhões de seguidores, são pagos a peso de ouro para divulgar essas plataformas. Ganham não só um cachê, mas também um percentual das perdas de quem se inscreve pelos seus links. Sim: quando o apostador perde, o influenciador lucra. Essa é a mecânica cruel que sustenta o sistema.

Em depoimento à CPI das Bets, um desses influenciadores foi direto ao ponto: disse que só promove os jogos porque “os políticos liberaram”. E aqui está um ponto que merece destaque. É público que algumas dessas empresas patrocinam viagens de parlamentares e, segundo investigações em curso, também financiaram campanhas eleitorais milionárias. Uma engrenagem poderosa, em que as perdas da população financiam a ascensão de figuras públicas — e, muitas vezes, o silêncio delas.

Diante da crise, dois projetos de lei tramitam no Congresso. Um busca proibir os jogos de azar dentro das plataformas on-line; o outro propõe que parte da arrecadação seja destinada à criação de ambulatórios no SUS para tratar dependentes. Uma resposta mínima — e tardia — aos estragos que o modelo atual já causou.

Fora o abalo social e psicológico, há o econômico. Como quase todas essas empresas têm sede fora do Brasil, o dinheiro apostado aqui sai do País rapidamente, sem gerar empregos, impostos ou investimento produtivo. Estimativas indicam que bilhões de reais foram remetidos ao exterior em 2023. É evasão de divisas — e é legal.

E há outros paradoxos gritantes: enquanto os cassinos físicos continuam proibidos no Brasil, o ambiente digital virou o paraíso do azar. Os influenciadores lucram, as plataformas engordam suas margens — e quem perde é o brasileiro comum, acreditando que está a um clique da virada, quando, na verdade, já caiu na armadilha.

Este é o País das bets. Onde a dor é silenciosa, o vício é invisível e a aposta mais cara talvez seja aquela que nunca deveria ter sido feita.

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