Violência doméstica e estupro, assuntos para profissionais

Em Novembro de 2019, fui convidada e fiz uma conferência na Embaixada do Brasil em Lisboa, sobre o tema da Violência Doméstica e Estupro, para jovens mulheres na faixa entre 20 e 30 anos. Tenho hábito de fazer esse tipo de conferência, não só no Brasil, mas também em US, pois trabalhei nessa área por 8 anos, inclusive com os predadores. Muitas pessoas despreparadas pensam que sabem e que podem lidar com vítimas ou como chamamos em US sobreviventes de violência, sem o devido preparo. Para trabalharmos ajudando pessoas com esse enorme sofrimento, temos que ter treinamento psicológico e muitas vezes também físico, tal como treinamento policial de defesa pessoal. Qualquer vacilo e a vítima morre. Durante o período de trabalho, o profissional faz diversos cursos e seminários para entender o porquê da violência, quando e por que ela começa e o que fazer para se resguardar dos predadores. Quais são os sinais de ALERTA para evitarmos um relacionamento abusivo.

Existe uma estatística que comprova que de 4 mulheres no mundo uma sofre de violência doméstica, a qual se divide em violência verbal, física, emocional, financeira e sexual. Em cada 7 pessoas no nosso planeta, homens incluídos nesta estatística, 1 sofre de estupro. Os que são abusados sexualmente, geralmente quando crianças, o são na maioria das vezes por parentes próximos ou pessoas que deveriam cuidar delas. Pessoas a quem confiamos os nossos filhos. É um percentual enorme! Portanto, devemos estar atentos, principalmente a transformação do comportamento social das crianças, para percebermos quando estão sofrendo abusos. Violência sexual é como uma tatuagem: quem a sofreu nunca mais esquece ou se livra dela e desenvolve sintomas de pânico ou fobias, ao longo das suas vidas. Alguns, dependem de terapia e medicação para conseguirem enfrentar o dia-a-dia por toda vida.

Acho que nao vou começar aqui a discrição sobre os vários tipos de violências, pois acho que com tanta informação disponível atualmente na Internet, todos já sabem. É importante salientar que a Violência Doméstica se dá através do PODER e CONTROLE que uma pessoa pensa possuir sobre a outra, ou também pelo sentimento de POSSE, que uma pessoa pensa que tem sobre a outra. É um ciclo, quando se instala, quero dizer, começa com agressão verbal e posteriormente passa para a violência física e muitas vezes o resultado é a morte ou feminicídio. Se o agressor não se der conta que está doente e se não procurar ajuda para quebrar o ciclo da violência, as consequências serão drásticas.

Não é nada fácil sair desse círculo de Violência Doméstica e Sexual, porque as pessoas têm laços emocionais dependentes. Um não necessariamente se une apenas ao outro, mas a toda instituição emocional de família, amigos, filhos, vizinhos, finanças, etc. Nesses episódios de violência doméstica e sexual é comum culpar a vítima, fazendo-a acreditar que ela é a única responsável pela agressão, pois se comportou de uma maneira inadequada e passou a mensagem errada ao predador. Para nos atrapalhar também, vem a VERGONHA e a HUMILHAÇÃO, por não tomarmos uma atitude. Quanto a Violência Sexual, é comum no relato das pessoas que a sofrem as ameaças do tipo: “se você contar ou não fizer o eu quero, eu mato você, sua mãe, seus irmãos. Se você não fizer o que eu quero, eu vou pegar sua irmã ou seu irmão mais novos e fazer o mesmo.” A criança apavorada cede ao predador, com o intuito de proteger os outros membros indefesos da família e o abuso se perpetua.

Tem ainda um outro aspecto muito importante da violência sexual: como é um ato abominável, a criança com medo e com vergonha recalca o fato no inconsciente e se esquece do evento, ou seja,  “varre a casa e joga o lixo embaixo do tapete.” Já aconteceu no meu trabalho por várias vezes, no meio de uma conferência, uma pessoa entrar em uma crise emocional e começar a chorar. Nesses casos, como fiz o Mestrado em Saúde Mental e sou Psicóloga, saio da sala para dar apoio particular ao sobrevivente.

Vale salientar que todo trabalho com pessoas que sofrem ou sofreram de violência física, psicológica, emocional e sexual é um trabalho de absoluto sigilo. Ninguém pode sair por ai falando e contando o incidente de violência que outra pessoa sofreu. Isso é ILEGAL e imoral! É falta grave de ética expor os problemas das pessoas, se utilizando da tão conhecida “fofoca.”  Quando profissionais usam um caso clínico em uma apresentação para melhor esclarecimento, se faz necessária a substituição de nomes e de alguns detalhes, para que o sobrevivente não seja identificado na comunidade. Caso o sobrevivente queira vir a público com sua história, até com o intuito de ajudar a outros, aí a questão é unicamente dela ou dele.

Por fim, devo avisar que os profissionais que trabalham nessas áreas de Violência Doméstica e Estupro têm suporte e apoio psicológico. Os profissionais são obrigados a se reunirem ao menos uma vez por semana, para fazerem terapia e trabalharem os Casos em grupo. Profissionais podem sofrer do que conhecemos como Estresse Pós Traumático, devido a natureza do trabalho, portanto, Violência Doméstica e Estupro não são uma áreas para os “achometros” e amadores. Violência Doméstica e Estupro são assuntos muito sérios e para profissionais!

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