Mensagens e mensageiros

No final do Século XX e início do Século XXI, os humanos avançaram muito em diversas áreas, principalmente na direção da tecnologia. Fica quase obrigatório e acessível a todos um Smartphone, um tablet ou um computador, mesmo nas áreas mais remotas do planeta.

 

O resultado desse avanço é que encontro ao despertar pela manhã, cerca de 400 mensagens no meu telefone celular. E olhem que o único site social que tenho é o que me conecta diretamente com o meu telefone, o então conhecido e simples WhatsApp. Já sem condições físicas e psíquicas de administrar tudo isso, comecei pedindo desculpas e apagando os meus grupos cadastrados, ficando apenas com o grupo da família imediata, filhos, genro e nora.

 

Até o grupo dos netos eu deletei, ou apaguei, já que tenho os telefones de todos individualmente. Entendo esse desejo de tantas trocas de mensagens por necessidade de trabalho e acredito que iremos evoluir mais a cada dia, mas também entendo pelo viés da carência afetiva de alguns de quererem ser influenciadores digitais e se gabarem por terem milhões de seguidores. Certo, a partir de certo número de acesso, ganha-se fama e dinheiro. Não conheço nada mais efêmero no nosso planeta do que as duas alternativas citadas: fama e dinheiro. Devem ter algum valor para explicar o estresse de uma total invasão da privacidade.

 

Interessei-me pelo assunto e comecei a pesquisar. Encontrei na Revista Entrelaces um texto de 2019, de Priscila Scoville, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul: Os Filhos do Tablete, um histórico esclarecedor, sobre a comunicação através dos tempos. Li no texto de Priscila, que no Antigo Oriente, os reis mantinham comunicação entre reinos, para manutenção da paz e da diplomacia, como também para a comercialização dos seus grãos e produtos.

 

Aprendi também que as mensagens eram escritas em um tablete de argila e enviadas por um mensageiro, de um reino para outro. Os mensageiros ou detentores dessas mensagens, viajavam de um reino para outro acompanhados de uma equipe de guardiões ou soldados armados, ou seja, um trabalho sigiloso e prestigiado na ocasião. Como muitas vezes os monarcas não sabiam ler, ao mensageiro ficava o encargo da leitura das mensagens, na presença dos conselheiros.

 

Durante os meus estudos escolares, também tive acesso ao interessante e misterioso escrito de Edgar Allan Poe, intitulado A Carta Roubada. Trata-se de um conto de uma correspondência importante da realeza que desapareceu no castelo e que abalou os nervos de quem estava no poder. Havia a desconfiança de que alguém a roubara para ter acesso a informações sigilosas e as suspeitas apontaram para um determinado ministro. O comissário de polícia foi chamado para resolver o mistério do sumiço da carta. Depois de alguns meses de extensa investigação por todo o castelo e interrogatórios, o comissário de polícia encontrou a carta colocada displicentemente ao lado de outras correspondências, sem nenhuma importância. É muito interessante todo o mistério no desenrolar da história, que visa a análise do comportamento humano. Jacques Lacan (1945-1998) retomou o conto de Poe, para articular os conceitos entre determinação simbólica e sujeito.

 

Não poderia deixar de citar nesse texto a troca de mensagens amorosas em séculos anteriores, como vemos na literatura, cujos mensageiros eram sempre empregados de confiança entre as partes envolvidas. Entre mensagens e mensageiros, o que vejo é a necessidade humana de interlocução e comunicação. Continuaremos portanto com a nossa evolução, até o dia que tivermos uma troca de energias simultâneas e imediatas, sem necessitarmos de objetos facilitadores.

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