A artista alagoana transforma madeira residual em narrativas sensíveis sobre tempo, corpo e regeneração
Fotos – Leopoldo de Castro
Há trajetórias que não começam — germinam. Crescem silenciosas, entre gestos cotidianos, afetos herdados e materiais aparentemente singelos. A história de Lyara Cavalcanti nasce assim: não como um ponto de partida definido, mas como um processo contínuo de escuta, criação e pertencimento.
“Desde muito cedo, minha forma de me entender e me expressar se deram através da criação e materialização com processos manuais. Então, desde criança, me conecto com esse universo, mas como prática e afirmação profissional, foi a partir de 2020, na finalização do curso de Arquitetura e Urbanismo. Minha pesquisa artística começou a ter corpo e estrutura a partir da coleta de podas urbanas de árvores e a experimentação com essa madeira residual“, narra a artista, abrindo caminhos para compreendermos uma produção que pulsa entre matéria e memória. 
Essa conexão primeira com o fazer artístico não se deu em instituições ou galerias, mas na intimidade do afeto — no espaço doméstico transformado em território criativo. Ao revisitar suas origens, Lyara revela o momento em que seu olhar se abriu para o mundo da criação:
“Lembro dos meus momentos na varanda da casa dos meus avós e da troca com meu avô, Rafael. Rodeado de plantas e bichos, esse foi o lugar da brincadeira, de escrever livros, fazer esculturas de argilas, pinturas e foi, também, o lugar onde estabeleci meu primeiro espaço de ateliê, já adulta”.
É nessa simbiose entre arte e afeto que se consolidam os alicerces de uma trajetória sensível e potente.
A madeira como corpo, memória e linguagem
A escultura, em suas mãos, não é apenas forma — é processo, escuta e transformação. A escolha da madeira como principal meio de expressão não foi planejada, mas emergiu da observação atenta do mundo ao redor.
“A relação com a madeira, como matéria, foi o que me levou à escultura. A escolha da madeira veio através da percepção desse material nos resíduos de poda de árvores. Árvores muitas vezes que me eram familiares em trajetos que fazia, então vê-las sendo despedaçadas me despertou a vontade de me voltar à sua matéria, que me intrigava por estar em algo como um estado que abriga morte e vida ao mesmo tempo e que representa ciclos, de uma forma muito significativa”.
Há, em sua fala, uma poética que atravessa o material: a madeira deixa de ser resíduo para se tornar arquivo vivo — um corpo que carrega tempo, história e transformação.
Seu aprendizado acompanha essa lógica orgânica. Longe de um percurso exclusivamente acadêmico, sua formação se constrói na prática, no erro e na experimentação.
“De início, trabalhando a madeira nesse estado mais natural, foi completamente experimental e intuitivo. Eu já tinha uma certa experiência com madeira processada em tábuas de pinus e compensados, por exemplo, através de trabalhos com cenografia, cinema e arquitetura. Junto ao meu avô Rafael, tínhamos a prática de desenvolver projetos de marcenaria artesanal e bem amadora, aproveitando algumas sobras desses trabalhos e outros materiais de descarte que encontrávamos. Então, muitas ferramentas me foram apresentadas por ele e algumas técnicas nesse universo da marcenaria mais experimental, que pude usar como base para o trabalho de escultura nesse material”, relatou.
Processo criativo: onde matéria e emoção se encontram
Para Lyara, a criação não obedece a uma hierarquia entre ideia, emoção ou técnica. Tudo começa em um território híbrido — íntimo e coletivo ao mesmo tempo.
“Acredito que tudo começa nessa pesquisa contínua, de buscar entendimentos que partem de processos pessoais mas que se relacionam com questões coletivas e despertadas, também, pelo próprio material. A madeira, para mim, é material que possui memória, passagem do tempo, relação com ciclos de morte e vida decomposição e transmutação, então todos esses processos são formas de aprender e entender sobre os meus próprios. Cada obra, vem de como o material a ser trabalhado evoca esses questionamentos e me faz enxergar uma forma de navegá-los e expressá-los”, compartilha a artista.
Essa escuta do material transforma cada peça em um diálogo — nunca em imposição. A forma surge como resposta, não como ponto de partida.
Poética da existência: dar forma ao invisível
Se há um eixo que atravessa sua produção, é a tentativa de corporificar aquilo que escapa às palavras. Sua obra opera nesse território do sensível, onde memória, sonho e experiência se entrelaçam:
“Corporificação de experiências não tangíveis que marcam, sejam memórias, sonhos, recortes autobiográficos. Dar forma àquilo que nos é pessoal mas também comum, como ciclos dentro de uma vida, possibilidades de transmutação e renovação, nossas capacidades de se regenerar, de se decompor e recompor”, nos conta a artista.
Ao entrar em contato com suas esculturas, o espectador não é apenas convidado a ver — mas a sentir, a reconhecer em si mesmo os ciclos que a madeira espelha.
“A percepção da nossa própria matéria, a partir da correlação com a madeira e seus processos. Enquanto vivos, nossas experiências são inscritas em nós, nos formam e ditam nossos ciclos em uma espécie de matéria simbólica, não tangível. Como um material que registra seus processos de vida, que possui capacidades regenerativas e de transformação e que abriga possibilidades de vida, mesmo após seu ciclo enquanto árvore, enxergo a madeira como uma matéria que espelha isso”, pontua.
Corpo, força e presença
Trabalhar com madeira exige mais do que técnica — exige entrega. O corpo da artista não é apenas ferramenta, mas extensão do próprio processo criativo.
“Meu corpo é a principal ferramenta e a de maior manutenção rsrs. Sim, é um material que exige força, e ser capaz de realizar os processos e chegar nas formas que eu visualizo (ou que descubro durante o processo) é parte fundamental da produção de uma obra. É uma junção de presença física, emocional e mental. Como uma entrega”.
Essa dimensão física se expande para o campo sensorial::
“A dimensão sensorial é o meio que minhas obras chegam nas pessoas e são sentidas. Quando falamos sobre o não dito, sobre as vias do sentir como forma de perceber e apreender as informações, acredito que também estamos falando sobre uma camada espiritual, de certa forma”, afirma!
Entre o território e o mundo
Viver e produzir em Alagoas é, ao mesmo tempo, raiz e desafio. A geografia da artista atravessa sua obra — não apenas como paisagem, mas como condição.
“Sim, nascer, viver e trabalhar em Alagoas é uma dimensão bem presente no meu trabalho.”
Mas esse território também revela lacunas estruturais no circuito artístico:
“Acredito que me manter trabalhando em Alagoas, fora do eixo dos grandes centros do país, é um desafio. A ausência do curso de graduação de Artes Visuais e de galerias atuantes no mercado nacional, acaba gerando uma desconexão com o público, falta de pesquisa e de mercado.”
Ainda assim, é desse lugar que sua produção ganha força — como resistência e afirmação.
Futuro em expansão
O trabalho de Lyara segue em movimento. Novas investigações apontam para cruzamentos entre arte e design, ampliando as possibilidades da madeira como linguagem.
“Estou trabalhando na produção de uma série de obras que trazem novas linguagens artísticas associadas à madeira e que se situam na interseção entre artes visuais e design experimental. Esses trabalhos serão apresentados ao público em exposição no final de 2026.”
E um marco importante já se aproxima:
“Sim, minha primeira exposição individual está sendo gestada e será apresentada ao público no final deste ano.”
Para quem começa: o conselho que ecoa
Encerrar essa conversa com Lyara é, inevitavelmente, retornar ao início — ao impulso que move qualquer criação. Seu conselho não romantiza o caminho, mas o encara com honestidade e profundidade:
“Primeiro, enxergar sua inquietação, o que te movimenta e te leva a produzir. Isso pode passar por processos muitas vezes desconfortáveis, de olhar para si mesmo. Mas acredito que traz mais clareza sobre o que você deseja comunicar e a força que isso pode ter. Além disso, a conexão com pessoas que estejam em um caminho parecido ou que simplesmente compreendam sua motivação são espaços de força e de cuidados essenciais, para mim, nesse caminho”
Como suas esculturas, suas palavras permanecem: abertas, orgânicas e em transformação — convidando quem lê a também se reconhecer matéria em constante mudança.
Serviço
As obras podem ser adquiridas mediante contato direto com a artista, via e-mail, Instagram ou site, onde é possível solicitar catálogo e acompanhar exposições.
instagram: @ lyarac / site: lyaracavalcanti.com / email: lyaracavalcanti@gmail.com










