Há dois dias, Brasília acorda sem saber qual será a próxima mensagem a sair do celular de Daniel Vorcaro. O ex-dono do Banco Master, preso desde novembro do ano passado, deixou um arquivo capaz de provocar algo raro até para os padrões da política brasileira: constrangimento simultâneo no Supremo Tribunal Federal, na Procuradoria-Geral da República, na Polícia Federal e entre personagens importantes da disputa presidencial.
O material reunido pela Polícia Federal revela uma relação entre Vorcaro e Alexandre de Moraes muito mais próxima do que se conhecia. Segundo o relatório, houve pelo menos seis encontros. Enquanto tentava salvar o Master e acompanhava as investigações sobre o banco, Vorcaro procurou o ministro e, dois dias antes de ser preso, chegou a perguntar se deveria deixar o país. Há também mensagens em que pede ajuda envolvendo o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. O relatório aponta Moraes como destinatário de parte dessas mensagens, mas não há registro das respostas em vários desses diálogos.
A relação se torna ainda mais delicada porque o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, firmou um contrato de cerca de R$ 131 milhões com o Banco Master. Metadados encontrados pela PF indicam que Moraes fez a última alteração no documento antes da assinatura. Uma segunda proposta, de R$ 50 milhões, previa até pagamento parcial com cotas de um jatinho e de um helicóptero, mas, segundo o escritório, não chegou a ser assinada. Nada disso, isoladamente, prova crime. Mas são relações que exigem explicações à altura de quem ocupa uma cadeira no Supremo.
O problema é que a investigação começou a engolir também quem investiga. André Mendonça, relator do caso, confirmou ter recebido Vorcaro, embora diga que houve apenas um encontro e que Moraes não foi assunto. A PGR agora pede a anulação do relatório sobre Moraes, alegando que Mendonça extrapolou suas atribuições. A própria PF questionou atos do ministro. A crise, portanto, já não é apenas sobre o que Vorcaro fez. Passou a ser também sobre quem pode investigar quem.
E o celular do banqueiro não respeita fronteiras políticas. Flávio Bolsonaro, hoje candidato à Presidência, cobra explicações de Moraes e diz que o ministro pode não ter condições de permanecer no Supremo. Ao mesmo tempo, precisa explicar sua própria relação com Vorcaro. Conversas reveladas anteriormente já haviam mostrado Flávio negociando recursos para Dark Horse, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Agora surgiu um aporte adicional de US$ 1,6 milhão, cerca de R$ 8,5 milhões na cotação da época, feito em setembro de 2025 ao fundo ligado à produção. Com esse valor, Vorcaro teria destinado cerca de R$ 63,7 milhões ao projeto. A produtora afirma que os recursos foram integralmente aplicados no filme e informados à Justiça.
É aí que o escândalo ganha uma dimensão especialmente incômoda. Um ex-ministro de Jair Bolsonaro, Fábio Faria, aparece como intermediário do contato entre Vorcaro e Moraes. Flávio negociava dinheiro para o filme sobre o pai. Moraes mantinha encontros com o banqueiro. O escritório de sua mulher tinha um contrato milionário com o Master. Vorcaro buscava interlocução com algumas das autoridades mais poderosas da República. Não significa que todos tenham cometido irregularidades. Mostra, porém, a facilidade com que o banqueiro transitava por ambientes que, no debate público, parecem estar em lados irreconciliáveis.
A proximidade da eleição torna tudo ainda mais explosivo. Cada mensagem passa imediatamente pelo filtro da disputa presidencial. Flávio usa as revelações para pressionar Moraes e já enfrenta o contra-ataque de adversários com o Dark Horse. A oposição cobra impeachment. Aliados de Lula querem a quebra do sigilo da investigação sobre o filme. O risco é previsível: cada grupo considerar escandalosa apenas a mensagem que compromete o outro.
Mas o caso Master é grande demais para caber nessa lógica. Se houver irregularidade envolvendo ministro do Supremo, ela precisa ser investigada. Se envolver candidato à Presidência, também. O mesmo vale para integrantes da Polícia Federal, da PGR ou de qualquer outra instituição. O critério não pode mudar conforme o nome que aparece na tela.
E talvez seja justamente isso que torne o celular de Daniel Vorcaro tão perigoso para Brasília. Empresários buscando acesso ao poder não são novidade no Brasil. O que impressiona é a extensão dessa rede e a quantidade de portas que pareciam abertas para o mesmo personagem.
Ainda virão novas mensagens, novos nomes e, provavelmente, novas versões. Algumas podem revelar irregularidades. Outras, apenas relações constrangedoras. Mas o caso já deixou uma pergunta difícil para a República responder: quando quem investiga, quem julga e quem disputa o poder aparecem na mesma teia, quem investiga quem?










