Desde muito cedo gostei de escrever. Fui o primeiro aluno da quarta série a escrever um poema, que depois acabou sendo enviado ao escritor Pedro Bandeira, que me respondeu com uma cartinha (pena que ela tenha se perdido ao longo do tempo). Depois, adorava criar narrativas e cheguei a escrever um livrinho em um caderno de brochura: era a descrição da minha aventura no parque Playcenter. Como o passeio era um sonho impossível naquele momento, usei a imaginação para experimentar a alegria que ele poderia trazer.
Mais tarde, inventei um jornalzinho escolar que teve umas três edições impressas. No colegial, datilografava minhas redações, originalmente escritas em folhas de almaço. Eu tinha opinião sobre os mais diversos assuntos: do alcoolismo na adolescência à fome no Haiti. Tudo isso me levou ao jornalismo. Fiz faculdade, trabalhei em jornais e revistas e escrevi e publiquei livros, usando as técnicas de comunicação que aprendi e exercitei ao longo dos anos.
Conto essas histórias para chegar à minha mais recente incursão no mundo das letras: a publicação do meu livro de memórias, “Outro Lugar de Mim” (Ed. Labrador). Eu imaginava que este seria mais um projeto em que bastaria planejar e sentar para escrever, e pronto, teria mais um livro, desta vez mais intimista do que tudo o que já havia feito.
Foi justamente essa virada de chave (do jornalista técnico para o escritor atento às nuances) que me exigiu um aprendizado muito mais profundo do que eu poderia prever. Foram três anos para escrever 12 capítulos do que chamo de minhas duas vidas: 38 anos no Brasil e 10 anos de reconstrução nos Estados Unidos.
Agora, com o livro prestes a completar seis meses de lançamento e já tendo recebido dezenas de feedbacks de leitores, me propus a refletir sobre o que aprendi (sobre mim e o processo de escrita) ao me permitir abrir passagens da minha vida que até mesmo amigos próximos desconheciam.
Divido aqui cinco coisas que aprendi nessa aventura de transformar em palavras histórias, sentimentos, impressões e interpretações sobre mim mesmo e sobre o mundo à minha volta.
1 – Escrever sobre memórias dói. Optei por falar sobre minhas crises e traumas. Levei esses temas para a terapia e investiguei meu próprio passado, revisitando detalhes de acontecimentos ruins que me marcaram. Foi terapêutico e me desafiou mais do que eu imaginava. Cheguei a ter pesadelos e momentos de profunda tristeza. E outros tantos de orgulho.
2 – Recontar a própria história depende da percepção. Hoje, rumo aos 50 anos, sei que a maneira como relembro e conto minha trajetória está atrelada ao amadurecimento e por uma capacidade mais ampla de interpretar a vida. Os fatos aconteceram em tempos distintos (alguns distantes, outros mais recentes), e o que extraio deles passa, inevitavelmente, pelo meu repertório atual.
3 – Cada um tem sua versão dos fatos. O que vivi, o que senti e o que ficou das experiências são algo muito particular. Estou certo de que as pessoas envolvidas nas histórias do livro podem ter visões completamente diferentes das que narro. O que escrevo são minhas verdades, meu ponto de vista. Os personagens (devidamente protegidos com a troca de nomes, locais e detalhes para evitar identificação) certamente guardam outras lembranças ou, até mesmo, desconsideram que os fatos tenham acontecido como descrevo.
4 – Expor vulnerabilidades divide o fardo do sofrimento. Um livro de memórias só se conecta ao leitor quando ele consegue, de alguma forma, se ver nas situações narradas. Ao escrever, precisei lidar com o medo do julgamento, mas também entendi que, ao expor minhas feridas, eu aliviava o peso que carregava e transformava o sofrimento em algo compartilhado com o lado humano de cada leitor.
5 – Escrever é fazer escolhas. A vida é complexa demais para caber no papel. Ao escrever este livro, precisei decidir o que contar, o que deixar de fora e, principalmente, como contar. Um livro de memórias não é um inventário cronológico da vida, mas um recorte, uma forma possível de transformar acontecimentos em páginas. Muitas histórias ficaram de fora. E ainda há sentimentos e aprendizados que não foram mencionados. E isso é justamente o que me dá tanto prazer na escrita: saber que ainda há outros livros possíveis.
Fabiano F. é jornalista e escritor de livros como “Outro Lugar de Mim” (Ed. Labrador). Saiba mais sobre o livro: linktr.ee/fabianoescritor Siga o autor nas redes sociais: @fabianoautor










