O barulho dos chinelos e o silêncio dos bilhões

Andre Cesar

nanda menor

O Natal de 2025 pegou o Brasil discutindo menos o presépio e mais um par de chinelos. A frase da atriz Fernanda Torres no comercial de fim de ano das Havaianas, pedindo que as pessoas não comecem 2026 “com o pé direito”, mas “com os dois pés”, virou combustível imediato para mais uma guerra cultural nas redes, com direito a vídeo de político jogando sandália no lixo, hashtags de boicote, resposta irônica do “lado contrário” e filas cheias nas lojas na véspera de Natal. Enquanto isso, quase sem barulho fora do noticiário especializado, o Congresso se movimentava para ressuscitar bilhões do antigo orçamento secreto, e o Supremo precisava intervir para conter a conta e a ilegalidade.

O roteiro da polêmica é conhecido. A peça publicitária, criada para a virada, faz um jogo com a expressão popular “começar o ano com o pé direito” e, logo em seguida, propõe “começar com os dois pés” na porta, na estrada, na jaca, onde cada um quiser, numa ideia de se lançar de corpo inteiro no ano novo. Setores da direita enxergaram imediatamente uma mensagem política, associando “pé direito” à direita e transformando um bordão de réveillon em suposto ataque ideológico. Deputados federais e vereadores alinhados ao bolsonarismo publicaram vídeos cortando, rasgando ou jogando Havaianas no lixo, chamando a campanha de “tiro no pé” e pedindo boicote nacional à marca. A resposta veio em efeito espelho: influenciadores, artistas e anônimos passaram a postar fotos em lojas lotadas, comprando chinelos como “ato político” às avessas.

O episódio diz mais sobre o ambiente político do que sobre o marketing da empresa. Em um país que entra em 2026 com eleições presidenciais e para governos estaduais no horizonte, qualquer fresta vira palco de disputa simbólica. A sandália se transforma em senha de pertencimento, a curtida em demonstração de fidelidade e o boicote, mais do que pressão econômica real, funciona como ritual de identidade, como apontam análises recentes sobre campanhas digitais desse tipo. O problema é quando essa espuma domina o debate a ponto de encobrir o que realmente interfere na vida de quem sequer tem dinheiro para comprar um par de chinelos novos.

Na mesma semana em que o país discutia Fernanda Torres, o Congresso aprovou um projeto que ressuscita restos a pagar de emendas parlamentares, dos quais quase 85% são de indicações do antigo orçamento secreto, mecanismo declarado inconstitucional pelo Supremo em 2022 por falta de transparência e uso político abusivo. Falamos de cerca de 2,5 bilhões de reais em emendas de relator dos anos Bolsonaro que voltariam à cena pela porta lateral, embutidos em um projeto de ajuste de benefícios fiscais. Foi preciso que o ministro Flávio Dino concedesse liminar suspendendo esse trecho e lembrando, em linguagem quase didática, que não se pode “ressuscitar modalidade de emenda cuja própria existência foi reputada inconstitucional”.

A contradição é gritante. Parte da classe política se indigna publicamente com uma frase de comercial e convoca guerra cultural em torno de chinelos, mas, na hora de reativar um esquema bilionário de verbas opacas, aposta no silêncio, em sessões esvaziadas e votações rápidas em meio ao recesso parlamentar de fim de ano. A mesma energia mobilizada para interpretar “pé direito” como afronta ideológica não aparece quando o tema é transparência orçamentária, responsabilidade fiscal ou prioridades de gasto público. E boa parte da opinião pública, acuada pelo excesso de ruído, acaba embarcando no debate mais fácil e emocional, deixando o que é estrutural na penumbra dos sites especializados.

O clima deste Natal, portanto, sintetiza bem o Brasil que entra em 2026: hiperconectado, hiperpolarizado e, muitas vezes, hipnotizado por polêmicas que rendem likes, mas desviam o olhar do essencial. Discutir o papel político da publicidade é legítimo; transformar cada frase de campanha em guerra de religião, enquanto o Congresso testa os limites da decisão do STF sobre o orçamento secreto, é o atalho perfeito para quem lucra com a distração permanente. Entre um pé direito, dois pés e nenhum pé na realidade, quem agradece são os donos das emendas invisíveis.