Marielle não pode ser exceção

Andre Cesar

Marielle Franco vale

A condenação, por unanimidade, dos mandantes do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes é um marco institucional raro no Brasil. Mas o que a decisão do Supremo realmente revela não é apenas a força do Estado quando pressionado — é o contraste brutal entre a exceção e a regra.

Marielle foi assassinada porque confrontava interesses que não toleram oposição. Não foi apenas um crime político. Foi a execução de uma mulher que ousou ocupar espaços que estruturas armadas, masculinas e profundamente enraizadas no poder consideram seus por direito. O julgamento reconhece essa dimensão. E isso é relevante. Mas o reconhecimento formal não apaga a pergunta central: por que é preciso que o mundo inteiro esteja olhando para que a justiça funcione plenamente?

O caso se tornou símbolo global. Houve mobilização internacional, pressão diplomática, vigilância constante da sociedade civil. O processo não pôde ser abafado, nem diluído, nem esquecido em cartórios burocráticos. Essa exposição permanente foi decisiva. Sem ela, é legítimo questionar se o desfecho teria sido o mesmo.

E é exatamente aí que mora o desconforto.

Enquanto o país celebra um julgamento histórico, os números da violência contra mulheres seguem revelando uma rotina silenciosa. O feminicídio não é exceção no Brasil. É padrão. A cada dia, mulheres são mortas por parceiros, ex-companheiros, agressores conhecidos. Sem transmissão ao vivo. Sem moções internacionais. Sem vigília global.

O sistema de justiça que, neste caso, conseguiu chegar aos mandantes é o mesmo que falha cotidianamente em garantir medidas protetivas, que desacredita denúncias, que trata ameaças como conflitos domésticos menores. A diferença não está apenas na gravidade do crime. Está na visibilidade da vítima.

Marielle era vereadora. Era conhecida. Era símbolo. Isso ajudou a impedir o esquecimento. Mas a lógica que a matou — a preservação violenta de poder, o controle sobre territórios e corpos, o silenciamento de mulheres que confrontam estruturas — continua operando diariamente em escala invisível.

Há um risco real de transformar a condenação em álibi institucional. Um grande caso resolvido pode servir como prova de eficiência, enquanto milhares de outros permanecem presos à lentidão, à negligência ou à impunidade. O sistema apresenta sua melhor versão quando está sob holofotes. Mas a democracia se mede na rotina, não no evento extraordinário.

Se o Supremo reconheceu que eliminar uma mulher que desafia interesses armados é violência de gênero associada à manutenção de poder, essa compreensão precisa transbordar do caso emblemático para o cotidiano. Do plenário para a delegacia de bairro. Do voto histórico para o boletim de ocorrência ignorado.

Marielle não pode ser celebrada apenas como símbolo. Ela precisa ser parâmetro. Porque, enquanto a justiça funcionar plenamente apenas quando há projeção internacional e alto custo político para o erro, a mensagem implícita permanece cruel: algumas vidas mobilizam o Estado inteiro; outras continuam lutando sozinhas.

E uma democracia que reage apenas quando constrangida não é forte. É pressionada.