Estamos transformando a vida em performance?

Fabiano F.

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Parece que só seremos felizes e aceitos se alcançarmos uma versão otimizada de nós mesmos

Conseguimos medir a qualidade do sono antes mesmo de sairmos da cama. Contamos os passos, registramos o treino, o ritmo cardíaco e as calorias gastas. Usamos aplicativos para controlar o que comemos, quanto bebemos de água e quantas horas ficamos sentados. Acompanhamos o tempo de tela, o foco, a produtividade. Contamos quantos livros lemos, quantos episódios assistimos e quantos minutos ouvimos de podcast. Avaliamos o humor, o nível de estresse, a qualidade do descanso e por aí vai.

No trabalho, já nos acostumamos a acompanhar metas, entregas e indicadores. E, fora dele, estamos cada vez mais fazendo quase a mesma coisa, sempre avaliando o desempenho, comparando resultados e, depois, compartilhando as conquistas nas redes sociais. Ultimamente, até o lazer e o descanso viraram dados. Na sociedade moderna, a vida, aos poucos, se transformou em palco para a performance.

Hoje, graças à tecnologia, tudo pode ser acompanhado, analisado e comparado. Essa lógica vem do mundo corporativo, dos relatórios, dos indicadores de desempenho, das metas e das avaliações constantes. Em nome da competição e da ideia de sempre estar à frente, emprestamos essas ferramentas para a vida pessoal, transformando o cotidiano em uma espécie de planilha invisível.

Não há problema em ter a disciplina de se autoavaliar. Pode ser útil e até motivador. No entanto, o problema começa quando medir deixa de ser ferramenta e vira cobrança. Ou seja, quando a experiência perde valor se não gerar informações que possam servir como marketing pessoal. Infelizmente, parece que, hoje em dia, fazer algo não basta: é preciso provar, registrar, mostrar.

Volta e meia, me vejo nessa encruzilhada. Quero compartilhar algumas coisas, mas fico tentando encontrar um jeito de não cair no deslumbramento e na espetacularização tão comuns hoje nas redes sociais.

Nessa corrida maluca para provar o quanto nos dedicamos ao que fazemos, começamos a nos olhar como projetos. Daí vem a sensação de que nunca é suficiente e de que precisamos “nos melhorar o tempo todo”. Parece que só seremos felizes e aceitos se alcançarmos uma versão otimizada de nós mesmos.

Não por acaso, essa obsessão por avaliação já foi levada ao extremo na ficção, lá atrás. Em Black Mirror, no episódio Nosedive (temporada 3, episódio 1, de 2016), as pessoas vivem em uma sociedade em que cada interação gera uma nota. O valor social de alguém depende desse score. O acesso a oportunidades, relações e serviços é definido por números. A sensação de exagero dura pouco. Logo vem o desconforto do reconhecimento.

Na vida real, de certa forma, já vivemos cercados por pontuações: score de crédito, histórico de consumo, avaliações, métricas, perfis. Somos constantemente classificados, ranqueados, analisados. É triste constatar que, muitas vezes, somos mais números do que histórias. Estamos passando por um processo de robotização das experiências humanas.

Nada disso significa que medir seja errado. Os números podem ajudar a nos organizar. O risco está quando o desempenho ocupa o centro da vida. Quando a experiência só vale se for mensurável, registrada e propagada.

Acredito que o maior desafio do nosso tempo não seja abandonar a tecnologia, mas aprender a colocá-la no lugar certo. Tento sempre adotar essa máxima: “usar sem ser usado”. Ou seja, medir e analisar sem reduzir tudo a desempenho. É preciso lembrar que nem tudo o que importa pode (ou deve) ser contado.

Num mundo que transforma tudo em performance, talvez preservar alguns espaços onde nada precisa ser avaliado seja uma forma simples e necessária de continuar humano. É hora de apostar na espontaneidade sem precisar provar nada a si e aos outros.

 

Fabiano F. é jornalista e escritor de livros como “Outro Lugar de Mim” (Ed. Labrador). Visite: www.fabianof.com e siga-o nas redes sociais: @fabianoautor

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