Azul que lembra, memória que resiste: a arte como território em Jhonyson Nobre

Wilson Smith

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De União dos palmares aos circuitos contemporâneos, o artista transforma vivências pessoais em investigação estética e política sobre identidade, raça e formação social brasileira

Fotos: Orlando Costa

A trajetória de Jhonyson Nobre começa de forma orgânica, quase intuitiva. “Meu caminho para a arte foi muito orgânico. Começou com o desenho ainda na infância, rabiscando paredes e cadernos, e depois evoluiu para a pintura de forma autodidata.” O que parecia apenas impulso criativo infantil tornou-se, com o tempo, uma linguagem madura e consistente.

A arte, para Jhonyson, sempre foi mais do que técnica. “Aos poucos percebi que a arte era um lugar onde eu podia dizer coisas que não cabiam nas palavras.” Esse entendimento transformou o gesto espontâneo em pesquisa. O que começou na pintura expandiu-se para outros suportes e se consolidou como uma investigação consciente sobre memória, identidade e narrativa.

Natural de União dos Palmares, cidade marcada por forte herança histórica e cultural, Jhonyson carrega o território como estrutura de sua produção. As paisagens, os costumes e as narrativas familiares aparecem como camadas recorrentes de suas obras. “União dos Palmares é o lugar onde estão minhas memórias mais antigas e as pessoas que formam minha história. As paisagens, os costumes e as narrativas desse território aparecem como pano de fundo de muitas obras.” Como sua pesquisa parte da memória, esse lugar não é cenário: é origem e fundamento.

Ao longo da trajetória, alguns marcos consolidaram sua presença no cenário artístico. A exposição Memórias do Inconsciente, sua primeira individual, ocupa posição central. Reunindo obras que sintetizam anos de investigação, a mostra ganhou itinerância pelo SESC e ampliou o alcance de sua pesquisa. Integrar o acervo do Centro Cultural Banco do Nordeste e participar da exposição Nordeste Expandido foram experiências decisivas, colocando-o em diálogo com artistas contemporâneos do Nordeste e do Brasil. Ainda no início da carreira, a participação em um salão de arte contemporânea no Louvre marcou simbolicamente sua inserção em um circuito internacional.

Mais do que reconhecimentos pontuais, esses momentos revelam a coerência de uma produção que se aprofunda com o tempo.

O azul como eixo cromático e simbólico

Se há uma presença constante em sua obra, é o azul. “O azul surgiu aos poucos e acabou se tornando uma espécie de eixo cromático do meu trabalho.” Para o artista, a cor está ligada à pele, ao tempo e a uma ideia de passado-presente. “É uma cor que permite construir atmosferas que oscilam entre o íntimo e o coletivo, entre o cotidiano e algo mais simbólico.”

O azul cria unidade visual e, ao mesmo tempo, densidade conceitual. Ele funciona como camada que conecta narrativas e intensifica a atmosfera de memória que atravessa cada trabalho. Não é apenas escolha estética, mas ferramenta de construção simbólica.

Sua investigação reside nas esferas do consciente e inconsciente. “A ideia do meu trabalho reside na dicotomia entre o consciente e o inconsciente. Desenvolvo essa investigação a partir de uma camada de intimidade, utilizando minhas próprias memórias para falar sobre as memórias de um Brasil e de sua formação, discutindo a racialidade e suas tensões por meio de um percurso familiar.”

Ao partir de si, ele alcança o coletivo. Questões como colorismo, racismo e apagamentos históricos emergem de forma simbólica e afetiva, provocando o espectador a refletir sobre aquilo que foi lembrado — e, sobretudo, sobre o que foi silenciado.

Linguagem expandida e memória em múltiplos suportes

Embora a pintura ainda seja um eixo central, sua linguagem ultrapassa o plano do quadro. “Eu defino minha linguagem como uma pesquisa visual sobre memória e construção de narrativas, que se realiza em múltiplos suportes.” Atualmente, ele dialoga com fotografia, audiovisual, madeira e bordado na construção de instalações como Azul é a memória, Aldeia e Manifesto Voinha.

Há um interesse crescente em criar obras que ocupem o espaço e estabeleçam relações mais diretas com o corpo do espectador. A experiência deixa de ser apenas contemplativa e se torna imersiva. 

O processo criativo começa com acúmulos. “Geralmente, o processo começa com imagens que vão se acumulando na memória: fotografias, histórias, cenas do cotidiano ou lembranças familiares.” A partir desse repertório, as ideias se organizam, mas a obra permanece aberta à transformação. “Existe uma base conceitual, mas deixo espaço para que a construção aconteça de forma mais intuitiva e aberta.”

As referências que sustentam essa pesquisa vão das vivências familiares às trocas com artistas próximos — como sua mestra de cerâmica, Albertina do Muquém — passando por nomes como Abdias Nascimento, Yusuf Grillo, Frantz Fanon e Neuza Santos Souza. Essas influências ajudam a aprofundar a reflexão sobre memória, raça e formação social, elementos que aparecem em sua produção de maneira simbólica e afetiva.

Desafios, permanência e novos projetos

Ser artista contemporâneo no Nordeste — especialmente em Alagoas — é enfrentar desafios estruturais. “Um dos principais desafios é a falta de estrutura contínua para a produção e circulação do trabalho. Muitas vezes, o artista precisa construir seus próprios espaços e oportunidades.” Ao mesmo tempo, ele reconhece a potência da produção local, marcada por pesquisas profundas e singulares. 

Foi a partir dessa reflexão que fundou a ARTEPOFAGIA, instituição independente de pesquisa, produção e difusão das artes visuais a partir de Alagoas, com o objetivo de contribuir para a estruturação da produção de uma nova geração de artistas, sem perder de vista as heranças das gerações anteriores.

Entre os projetos atuais está o curta documental híbrido CARRÊGO, que coloca em movimento sua investigação sobre infância, memória e trabalho infantil. A exposição Memórias do Inconsciente segue em circulação, e ainda neste semestre ele lança o livro-ateliê Poderiam ser páginas de um diário, publicação que reúne processos e devaneios na construção de sua obra.

Em tempos de imediatismo, Jhonyson aposta na maturação. “Diria para terem paciência com o próprio processo. A construção de uma linguagem artística leva tempo e exige continuidade.” Para ele, a arte não se constrói apenas com técnica, mas com experiência, reflexão e insistência.

Ser artista, afinal, não é um acontecimento isolado. É percurso. É permanência. É um processo que — como ele mesmo afirma — “leva uma vida inteira.”


Acompanhe o trabalho do artista em: 

Instagram: @jhonysonnobre 

Site: jhonysonnobre.com

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