O acordo Mercosul–União Europeia finalmente saiu da gaveta depois de um quarto de século de idas e vindas, e não foi por súbita iluminação diplomática. Saiu por medo. Medo de a Europa ficar espremida entre o protecionismo agressivo dos Estados Unidos e o avanço silencioso, porém persistente, da China sobre cadeias de valor estratégicas. O aval político dado pelos países europeus ao tratado, abrindo caminho para a assinatura em Assunção ainda em janeiro, é menos um gesto de entusiasmo comercial e mais uma resposta defensiva a um mundo que voltou a negociar poder por meio de tarifas.
Para os dois blocos, o acordo cria uma das maiores áreas de livre-comércio do planeta, reunindo cerca de 700 milhões de consumidores. A União Europeia se compromete a eliminar tarifas sobre 91% dos produtos importados do Mercosul e, em troca, verá cair drasticamente as alíquotas que hoje encarecem carros, autopeças, máquinas, vinhos, laticínios e têxteis europeus ao entrar em Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Bruxelas estima uma economia anual entre 4 e 4,5 bilhões de euros em tarifas para suas empresas e projeta um aumento de quase 50 bilhões de euros nas exportações ao Mercosul até 2040. Esses números ajudam a entender por que a Europa decidiu assumir o custo político interno do acordo. Do lado sul-americano, a aposta é ampliar vendas de carne, grãos, frutas, açúcar, etanol e minérios para um mercado rico, diversificando dependências hoje concentradas em Estados Unidos e China.
O empurrão decisivo veio do ambiente externo. Desde o ano passado, a Europa passou a conviver com tarifas adicionais impostas por Washington e com a ameaça permanente de novas barreiras, ao mesmo tempo em que observa a China usar sua política industrial como arma comercial em setores como painéis solares, baterias e carros elétricos. Nesse cenário, Bruxelas passou a falar abertamente em “diversificar riscos” e reduzir vulnerabilidades diante de Washington e Pequim. O acordo com o Mercosul, antes visto sobretudo como um dossiê incômodo sobre carne, desmatamento e padrões sanitários, ganhou outra função: virou instrumento geopolítico para mostrar que ainda existe espaço para grandes pactos multilaterais num mundo fragmentado. Não por acaso, análises em jornais como o New York Times e o Wall Street Journal apontam que o tratado ajuda a amortecer o impacto das tarifas americanas e a diminuir a dependência europeia da China em alimentos e matérias-primas.
O que está acertado até aqui é o esqueleto econômico do acordo. O Mercosul se compromete a reduzir ou eliminar, em cronogramas que vão de 10 a 15 anos, tarifas hoje entre 15% e 35% para bens industriais europeus. A União Europeia, por sua vez, abre cotas amplas e cortes tarifários relevantes para produtos agropecuários do bloco sul-americano. Também estão definidos capítulos sobre indicações geográficas, regras de origem, compras governamentais, serviços e propriedade intelectual. Politicamente, o avanço foi celebrado como “histórico” por líderes do Sul e do Norte. Mas a grandiosidade do acordo no papel contrasta com sua fragilidade no terreno político.
A parte mais difícil começa agora: transformar a decisão dos governos em um tratado em vigor. Na Europa, o texto ainda precisa ser formalmente assinado, aprovado pelo Parlamento Europeu e, em vários países, ratificado por parlamentos nacionais. França, Irlanda, Áustria, Hungria e Polônia já se posicionaram contra, pressionadas por agricultores que temem concorrência “desleal” da carne e dos grãos do Cone Sul. Ao mesmo tempo, forças verdes e nacionalistas prometem travar batalhas em Estrasburgo. Bruxelas tenta conter a resistência com promessas de salvaguardas agrícolas e redução de tarifas sobre fertilizantes, sinalizando que haverá mecanismos de proteção caso as importações cresçam além do esperado.
No Mercosul, a assinatura em Assunção inaugura disputas internas próprias. No Brasil, o governo apresenta o acordo como oportunidade de reposicionar o país nas cadeias industriais globais e atrair investimento europeu para transição energética, infraestrutura e indústria de baixo carbono, mas enfrenta críticas de setores industriais receosos de perder espaço para produtos europeus de maior valor agregado. A Argentina de Javier Milei abraça o tratado como símbolo de reabertura pró-mercado, enquanto sindicatos e produtores cobram garantias para não se tornar apenas uma plataforma de exportação de commodities. Paraguai e Uruguai enxergam no acordo uma chance de reduzir a dependência dos vizinhos maiores e ganhar protagonismo em agro, energia e logística.
Em síntese, o medo fez aquilo que 25 anos de negociação não conseguiram. O tarifaço americano e a pressão chinesa forçaram a Europa a olhar para o sul não apenas como problema ambiental ou concorrente agrícola, mas como parceiro estratégico numa economia mundial em disputa. O acordo Mercosul–União Europeia nasce desse choque de realidade: enorme em ambição, frágil em sustentação política. Entre a assinatura e a ratificação plena, a agenda será disputada voto a voto, setor a setor. A pergunta que fica é direta: os dois blocos vão usar essa janela para construir um pacto de longo prazo ou transformar o maior acordo de sua história em mais um campo de batalha doméstico?










