Precisamos parar de julgar

Fabiano F.

julgamento

Se na antiguidade as pessoas eram degoladas, apedrejadas ou queimadas em praça pública, hoje são julgadas, condenadas e banidas em questão de minutos. As redes sociais (que, na verdade, não cumprem muito bem o papel de socializar) têm funcionado como um tribunal injusto, já que o julgamento vem na velocidade da luz, sem chance de plena defesa do julgado.

É incrível: parece que temos um chip ou algum software instalado em nossa mente, com a capacidade de julgar tudo e todos. Mesmo sem admitir, ou sem ter consciência, somos verdadeiras “máquinas julgadoras”, que não perdoam nada. Por maior que seja nosso autoconhecimento, por mais que aparemos as arestas do nosso comportamento, o julgamento está ali, praticamente automático, sem dó nem piedade. Já prestou atenção nisso?

Há muito tempo, propus-me a observar atentamente e parar (ou pelo menos reduzir) todo e qualquer tipo de julgamento automático, fosse ele ético, moral, social ou de outra origem. Ao iniciar este exercício, percebi o quanto fomos educados para julgar. Pais, parentes, professores, amigos e a sociedade praticamente nos ensinam a julgar, a separar, comparar, condenar e por aí vai. Com isso, os julgamentos parecem se tornar uma habilidade para nos defender, diferenciar ou mesmo sobreviver na selva das relações. Mesmo que nas entrelinhas, o julgamento está sempre presente em nosso cotidiano. Que pena que, na maioria das vezes, funcione assim.

E quando falo de julgamento nem estou incluindo questões como racismo, separação de classes ou preconceitos baseados em diferenças. Estes pertencem a uma esfera ainda mais complexa. Falo daquela mania de prontamente emitir uma opinião sobre algo ou alguém e logo já dar um veredicto, principalmente para nos sentir melhor do que a pessoa ou situação julgadas. No nível mental, funciona quase como um alívio ou justificativa para validar o quanto somos bons, justos, honestos e valiosos do que qualquer outra pessoa no mundo.

Fui pesquisar sobre o assunto e descobri que um estudo da universidade americana de Princeton apontou que nosso cérebro julga tão rápido, que as respostas acabam não tendo nenhuma conexão racional. Então cabe a nós, como exercício social, racionalizar, filtrar, ponderar e usar bom senso para não deixar que a perversidade desse comportamento tome conta e estrague nossas relações. Ao julgar, colocamos-nos em um pedestal, como se fossemos perfeitos, intocáveis e acima do bem e do mal. Precisamos urgentemente estancar os julgamentos automáticos. Sei que praticar a aceitação das coisas como são não é tarefa fácil, mas é possível.

É um árduo exercício não julgar no mundo de hoje, especialmente porque uma avalanche de informações nos é empurrada “goela abaixo” a cada segundo e nos sentimos pressionados a ter uma posição e uma opinião sobre tudo. O problema é que estamos nos perdendo nessa liberdade de expressão. Vejo diariamente como as pessoas são metralhadas nas redes sociais. Muitas vezes, fico lendo comentários de postagens polêmicas e percebo o quanto tem gente com “pedras nas mãos”, que são atiradas para todos os lados.

Julgam-se tudo: de aparência a comportamentos, de posição política a padrões comercialmente aceitos. Passou da hora de se questionar e recorrer a todo instante à máxima: “Se não sou perfeito, logo não tenho o direito de julgar. Nada. Ninguém”. Seria simples colocar isso em prática se, toda vez que um julgamento automático aparecesse, tivéssemos a coragem e rapidez de reconhecer e reverter a situação perguntando-nos: “O que preciso e posso melhorar em mim?” Ou também: “O que me acrescenta emitir opinião sobre esta pessoa ou situação? Qual o propósito?”

Com estes simples questionamentos, a chance de evitar julgamentos vazios e desperdiçar energia se reduz drasticamente e passamos para um outro nível de compreensão e vivência das relações. Está na hora de praticar mais a neutralidade, evitar extremos e comparações e aceitar que as pessoas são como são. A partir daí, podemos começar a fazer as mudanças necessárias. Precisamos começar a fazer a nossa parte.

Fabiano F. é jornalista e autor de livros de autodesenvolvimento, como o livro “Enfrente”, de onde este texto foi extraído. Email: fabianoescritor@gmail.com

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