As armadilhas da vaidade

Fabiano F.

emocional (1)

Se existe um componente capaz de abalar nossa imagem e arruinar a possibilidade de um genuíno engajamento social, a vaidade excessiva é um dos que mais contribuem para isso. Na era do culto ao corpo e à “celebrização” instantânea via redes sociais, a vaidade virou um poderoso instrumento para se sobressair na selva competitiva moderna. Não importam classe social, raça, idade ou qualquer outro quesito classificatório: cada um usa as armas que tem para obter atenção e aprovação.

Ter vaidade não infringe nenhuma lei: o problema é a dose, o contexto e o quanto o comportamento vaidoso se estende e se embrenha na construção da própria personalidade. Ninguém discorda que, em certa medida, a vaidade se faz necessária, principalmente quando é traduzida de forma razoável em cuidados pessoais e em estímulo para aprender e conquistar novos espaços. Mas, infelizmente, não é assim que ela está sendo usada. A vaidade tem sido elevada à potência máxima e funcionado como uma barreira que nos individualiza e nos afasta cada vez mais.

Se na mitologia grega “Narciso achava feio o que não era espelho”, o vaidoso pós-moderno tende a se achar diferente dos outros, seduzido pela imagem projetada em sua mente como mais bonita, mais adequada, superior e cobiçada do que a dos demais. O vaidoso age como se fosse inatingível e como se os motivos que o envaidecem estivessem totalmente em seu controle. Grande engano. A vaidade geralmente é pauta[1]da por algum atributo físico (que a pessoa de fato tem ou imagina ter) ou por algum tipo de conquista material ou intelectual. Ou seja, tudo o que se destaca do comum, do popular, vira motivo para “se achar”. Vai da aparência a um posição de poder na sociedade.

O que o vaidoso em excesso não leva em conta é que nada dura para sempre e que para manter o status quo é necessário um esforço sobre-humano, cujo preço mais alto é a paz interior. Tanto os espaços sociais quanto privados estão povoados de vaidosos. Alguns agem de forma mais reservada, desfilando sua vaidade somente para os interlocutores mais próximos, enquanto outros entopem seus perfis nas redes sociais com as mais diversas demonstrações daquilo que considera ser seu trunfo.

O vaidoso se fecha em uma bolha com regras muito específicas, que tendem a transformá-lo em um perfeccionista. Exige tanto de si para manter sua pose, que, aos poucos, passa a usar a mesma “régua” para medir os outros.

Extrapolar na vaidade limita a possibilidade de uma verdadeira interação com o diferente. O vaidoso acaba sendo pouco produtivo em seu processo de crescimento e amadurecimento, pois sempre está preocupado em manter padrões rígidos que ele próprio se impôs. Vaidosos fogem da dor, da queda e da derrota fingindo que estes percalços não existem ou não o atingem. Ao fazer isso, cavam um buraco ainda mais fundo na própria existência, pois a verdade sempre bate à porta. Ela pode demorar, mas chega.

A vaidade é um daqueles “pecados capitais” que precisamos conter, administrar ou, preferencialmente, extirpar do nosso comportamento. Ao precisar do olhar e do aplauso do outro, estamos, no fundo, escondemos nossa insegurança, incompetência e fragilidade. É difícil admitir isso. Mas sempre é tempo para revisar o modo de agir consigo e com o mundo. Às vezes ficamos anos a fio pagando um preço altíssimo, muito mais motivados pelas cobranças externas do que por nossas reais vontades. Mas sempre é tempo para rever posturas e adotar o equilíbrio. Basta vontade e esforço!

 

Fabiano F. é jornalista e autor de livros de autodesenvolvimento, como o livro “Enfrente”, de onde este texto foi extraído. Email: fabianoescritor@gmail.com

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