A inércia e o desejo inconsciente de morte

A inércia, de acordo com o Mini Dicionário Aurélio, é definida como falta de ação, indolência, indiferença e preguiça. São características que, às vezes, vemos no nosso comportamento, devido a pandemia que estamos vivenciando com a COVID-19 durante esses sete meses, onde a ordem de todos os dias é ficar em isolamento social.

Eu e o meu espelho, principalmente se não vivo em uma constelação familiar. Desespero para muitos, encontro reflexivo conosco mesmos para outros, onde podemos avaliar constantemente a nossa vida, principalmente do ponto de vista do que fizemos errado e onde acertamos.

Quem são os nossos familiares, vizinhos e quem são os nossos amigos? Com quem podemos conviver com satisfação e sem atritos, para que nossa própria paz interna seja preservada. Quem são esses “outros,” que vieram para nossas vidas, para nos ensinar. Ao escrever esse Ensaio, comecei a pensar nas Obras de Freud, especialmente no escrito Além do Princípio do Prazer. Resolvi associar a Inércia com o desejo inconsciente da morte.

Freud acreditava que o desejo inconsciente de morte está ligado diretamente com a biologia, representando a fundamental tendência de que todas as coisas vivas retornam ao estado inorgânico ou inanimado enquanto que Jacques Lacan (1901-1981) articula o desejo inconsciente de morte com a cultura, ao invés de com a biologia, ensinando que todo desejo requer a extinção quando satisfeito e que vai além do prazer.

Melanie Kleine, psicanalista também austríaca pós-freudiana que viveu em Londres, estudou o conceito do desejo de morte muito seriamente. Ainda pensando na Inércia, esse princípio foi estudado primeiramente por Galileu e posteriormente por Newton, e significa que o que está parado continuará parado e o que está em velocidade, continuará em velocidade. Pela falta de atividade física, mental e intelectual nos sentimos apáticos e melancólicos diante da pandemia do COVID.

Dentro de nossas casas, sem quase nada que demande nossas ações, principalmente se não estamos cuidando de crianças pequenas, pensamos que tudo pode ser procrastinado. Teremos bastante tempo disponível e poderemos fazer essa ou aquela tarefa amanhã. A preguiça e a falta de motivação passam a fazer parte constantes da nossa vida. Só em pensar em trocar de roupa, calçar sapatos e colocar máscara, já nos sentimos sem nenhum entusiasmo para sairmos de casa.

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Seguindo a minha proposição inicial, vamos pensar agora no desejo de morte inconsciente, que nada mais é do que reduzir o que tem vida para o estado inanimado. Após a satisfação do que desejamos como necessidades básicas ou até mesmo após a satisfação dos nossos impulsos, podemos pensar na paz que existe na quietude do silêncio: o NADA.

O som do silêncio nos ajuda na mais íntima reconexão com nós mesmos. Não penso no silêncio como abandono, punição ou como um sofrimento. Penso no silêncio como a mais completa paz, uma nostalgia da harmonia perdida, quando podemos ficar quietos, participando e observando o fim de ciclo e o início de uma nova era. “Se você não consegue entender o meu silêncio, de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos.” Oscar Wilde.

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