A difícil separação, quase morte

A palavra separação, segundo o dicionário Aurélio, significa “fazer a desunião do que um dia estava ligado”. Podemos pensar que a separação definitiva entre os que um dia se uniram porque se amaram pode ocorrer por uma infinidade de razões e sentimentos de decepções, ressentimentos, indiferença, rejeição e até mesmo ódio.

Essa separação é sentida e relatada pelos que a experimentaram, como uma das maiores dores que o ser humano pode passar, só comparável com a morte. “Aliás, vemos separação amorosa e a morte como cúmplices: a primeira se apresenta como precursora e símbolo da segunda. Ou seja, estudar a separacao amorosa significa estudar a presença da morte em nossa vida”, escreve Igor Caruso, em A Separação dos Amantes.

Sobre esse tema, foram escritas as maiores obras da literatura. A separação definitiva dos que um dia se amaram desconhece gênero, cultura, classe social e grau de educação. Pode acontecer pela escolha unilateral ou bilateral ou também por fatos inevitáveis no decorrer da vida, como por exemplo a morte física ou biológica de um dos envolvidos na união. Na realidade, o mais importante depois de uma separação é que cada indivíduo consiga superar os traumas vivenciados e se reencontre em um novo caminho que deverá seguir, sem a repetição do que deu errado na relação amorosa anterior.

Quando estamos vivenciado uma paixão, recusamos acreditar que um dia esse sentimento tão poderoso e forte possa acabar e ser substituído por um longo processo de afastamento, causado por decepções dentro das expectativas e fantasias que temos em relação ao parceiro amado que idealizamos.

Devido as desilusões, a paixão vai então definhando lentamente, às vezes, até sem a nossa percepção dessa realidade. Inúmeras vezes choramos fisicamente de dor emocional durante uma relação apaixonada que nossas lágrimas se esgotam, e quando nos livramos finalmente do amante que muitas vezes é um abusador, nosso sentimento é de total alívio e liberdade.

O individuo corajoso por dizer um “basta” na situação, olha-se no espelho e pensa que acabaram-se as humilhações que um dia acreditava infindáveis. Sobra apenas uma imagem quase apagada do que um dia foi o amado, muitas vezes sem nenhuma recordação positiva ou negativa, ou sem qualquer história.

Outras vezes, como materialização daquele amor absoluto advém os filhos, os quais damos graças a Deus por tê-los tido. Já a relação amorosa de parceiria fica mesmo na instância do esquecido, da indiferença, quando bem sentida e elaborada através do luto. É nessa fase de pós-luto que estamos prontos para seguirmos nosso próprio caminho, sem ódio, sem culpas e sem nenhum sentimento de arrependimento da atitude tomada.

Com a convivência, os valores de cada indivíduo são testados diariamente. A separação lenta ou o distanciamento dos dois ou de um dos envolvidos na relação amorosa pode ocorrer pela falta de interesses comuns, como também pela queda da idealização do outro. Isso não acontece da noite para o dia, mas vai ocorrendo como uma doença crônica, onde os envolvidos muitas vezes nem percebem. Começam a surgir intolerância tão grandes, que na maioria das vezes nem se consegue escutar a voz do outro sem irritação. A relação erótica e sexual anteriormente tão cheia de emoções, se transforma em inexistência e fica somente o lamento como resto, por ter sofrido tanto, por tão pouca ou nenhuma felicidade.

Viver uma separação é muito complexo, principalmente porque “para garantir a sobrevivência, provoca-se a morte da consciência de um ser vivo dentro de um outro ser vivo”, como escreve Igor Caruso. O indivíduo não morre realmente em vida, mas morre dentro de mim, na minha consciência. Todo o sentimento de posse e poder sobre o outro terão, então, que ser substituído, gerando mecanismos de defesas através da repressão, agressividade, resignação e racionalização, para superarmos as perdas sem nos destruirmos a nós mesmos. É a morte do desejo.

Com a separação pela morte física do parceiro, o indivíduo busca um motivo para sobreviver em novos objetos, algumas vezes até com sentimentos de culpa, por ter permanecido vivo. A consciência então se divide, por causa da ambivalência entre o dever de morrer junto com o amado e o desejo de viver. O importante é ficar atento ao fato que numa separação não existe só perdas. A separação também enriquece o indivíduo, criando condições para descobrimos quem somos realmente sem a dependência psíquica do outro.

Nota: esse texto veio após a indagação do meu neto Guilherme, então com 10 anos: você se casou com meu avô, entao, você gostava dele. Você beijou ele na boca (a inocência da criança é linda!). Como é que agora você chama ele de horroroso? E chamo e me refiro a ele com esse apelido mesmo e na frente dele. Ao que o horroroso responde: “e o seu azar é que o nosso filho é a minha cara”. Certamente, fisicamente, mas o caráter, ah o caráter, é completamente diferente.

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