O tempo: lógico, psicológico e cronológico

O tempo, segundo o dicionário Aurélio, é definido como “a sucessão dos anos, dias, horas, etc, que envolve a noção de presente, passado e futuro”. Esse tempo cronológico lida com a quantidade definida em horas, com o movimento de rotação do nosso planeta Terra. O tempo cronológico presente é definido pelo relógio, pelo calendário, pelos dias e noites.

O tempo psicológico é algo mental e lida com a qualidade do tempo e a nossa percepção de como o tempo passa. O tempo psicológico é normalmente produto de uma experiência anterior, não mensurável, mas unicamente subjetiva. Tomemos como exemplo, quando estamos em pé em uma fila, certamente esse nosso tempo psicológico será infinito e desagradável enquanto que se estivermos na companhia de amigos, o tempo psicológico passará muito rapidamente. Nós humanos temos uma percepção interna do tempo. O tempo psicológico depende da nossa concentração e atenção, ou seja depende do aqui e agora.

Existe ainda uma outra definição Lacaniana, que nos ensina sobre o Tempo Lógico, que foi desenvolvido em 1945 e que tenta alcançar o desejo do inconsciente. Esse conceito de tempo lógico foi primeiramente utilizado por Lacan, para definir o tempo do cliente em sessão no processo de psicanálise.  No conceito de Tempo Lógico, a cronologia fica excluída. O tempo do sujeito de acordo com Jacques Lacan tem três formas temporais: o instante do sujeito de ver, que é também definido como o sujeito da imediação. A segunda forma temporal do inconsciente é o tempo para compreender o que o sujeito viu, o tempo da intersubjetividade. A terceira forma temporal é o momento de concluir. É uma espécie de certeza, é como e quando o sujeito chega a sua certeza do saber sobre o que viu e compreendeu. É o Tempo Lógico que recupera as formas do sujeito que vai organizar as suas idéias.

Ao trabalhar com sobreviventes de violência doméstica, percebi que esse tempo lógico Lacaniano que é inconsciente pode durar 10 anos ou apenas 10 segundos. É uma questão subjetiva. No momento que acontece o primeiro movimento do abusador contra a sobrevivente, no primeiro ato indicador da violência, ela ou ele se assusta no instante de ver. O próximo passo, será o tempo para o sobrevivente compreender o que viu. Nessa fase, vem a incerteza e a indagação: será que isso aconteceu mesmo? Será que eu vi ou ouvi direito? Será que a pessoa que eu amo foi capaz de fazer isso comigo? Na terceira forma do tempo lógico do inconsciente será o momento de concluir, ou seja, se eu não pedir socorro e sair dessa relação agora, eu posso morrer.

Finalizando ou concluindo esse meu ensaio, gostaria de fazer uma observação: o/a sobrevivente de violência domestica não é um indivíduo sem vergonha, que apanha, é xingada(o), abusada(o) sexualmente, financeiramente, emocionalmente e volta para o/a companheira(o). Sobrevivente de violência doméstica pode não estar pronta(o) ou seja, no seu momento subjetivo de concluir para tomar uma atitude definitiva, para escapar da morte. Deus que proteja!

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