O humano e a necessidade de pertencer

Marcony Almeida

Ao trabalhar ajudando pessoas a saírem de situações de violência em Massachusetts, entre os anos de 2003 e 2011, percebi um fato importante, principalmente na comunidade de imigrantes: a necessidade de pertencer a um grupo. O indivíduo sai de uma zona de conforto, do convívio com a família, igreja, comunidade, língua comum, para enfrentar o sonho de trabalho e progresso em outro pais do qual muito pouco conhece.

Na maioria das vezes viaja sozinho. Não acostumado ao que chamo de “sozinhes”, ou seja, a solidão por opção, ou ainda por completa ignorância do sistema ou também por carência afetiva, o indivíduo a quem chamarei de imigrante entra em situações de risco, fazendo escolhas precipitadas, no afã de pertencer e ser valorizado.

De acordo com John Donne, “nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma particula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.”

A necessidade financeira do imigrante em arrumar um trabalho urgente para seu próprio sustento pode ser uma condição para o abuso. Pode escolher empresários inescrupulosos que não pagam devidamente, e muitas vezes até não pagam o combinado. Piorando a situação, alguns empresários entregam papéis escritos em outra língua e requisita a assinatura do imigrante, que nem sabe o que assinou.

Não tendo a quem ou onde reclamar porque não conhece o sistema, ou melhor dizendo os Estados Unidos é um país capitalista, fica então o imigrante sem saber como e o que fazer pois as ameças de prisão, deportação e fracasso pairam como uma nuvem sobre sua cabeça. E Getúlio Vargas, o presidente do Brasil que criou e aprovou as leis trabalhistas no Brasil, não esteve na terra do tio Sam.

Outra escolha precipitada que o imigrante faz é em relação a vida afetiva. Onde vivia anteriomente, tinha melhores condições de avaliar o amigo ou o(a) parceiro(a). Sabia onde as pessoas tinham estudado e a que família pertenciam, significando fazer uma escolha mais criteriosa e acertiva para um relacionamento. Em um país diferente, o imigrante perde esses parâmetros, critérios e referencias.

Por necessitar de legalização e também por não falar a mesma língua e conhecer os costumes e o sistema, na maioria das vezes cai na mãos de abusadores. Os predadores sexuais estão sempre de olhos abertos, para seduzirem e atacarem a qualquer instante. A ingenuidade, assim, é um fator graves de risco.

Nas duas possibilidades citadas acima, o imigrante ainda ouve com tom de autoridade do abusador que se for reclamar na justiça, só vai se dar mal. O abusador ameaça ligar para o serviço de Imigração e fazer uma denuúncia. Acuado, o imigrante se cala e sofre toda sorte de abuso, até encontrar algum serviço sério e gratuito disponível para pedir ajuda.

Enfim, a necessidade de pertencimento ou de ser parte de algum grupo para ter uma identidade ou para se sentir reconhecido, protegido e valorizado, pode levar a situações de violência e de abusos.

Se você optou por ser imigrante, ou se optou por conviver com alguém em qualquer outra situação de relacionamento onde existe “poder” e “controle” fique atento para não sofre abusos. Conversar abertamente sobre toda e qualquer tipo de situação que lhe deixa inconfortável é a primeira atitude para seu esclarecimento, e para tentar sair de uma situação constrangedora e abusiva. Lembre-se “nenhum homem é uma ilha isolada…”

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