“Ética, Moral e Nós, Humanos

Marcony Almeida

Deixando de lado as nossas decepções com os políticos e legisladores do nosso país e do mundo em geral, e focando no nosso dia-a-dia, talvez por causa da minha idade, maturidade, educação familiar, religiosa, ou mesmo por causa do que costumamos chamar na linguagem popular de “rabugice”, estou constantemente entrando em atritos com amigos e estranhos na rua, por causa de conceitos éticos e morais.

Brigo com os que estacionam em lugares proibidos, lugares de cadeirantes sem serem cadeirantes, com os que querem furar as filas, com os que jogam lixo nas ruas, com os que urinam em praças públicas (sim, aqui em Salvador, Bahia, Brasil, ainda temos que aturar isso). Há ainda os que digitam no celular dentro do cinema ou na direção de um veículo, e segue minha lista infindável.

Aprendi na Escola que ética se refere ao caráter do indivíduo, de pessoa para pessoa. O que é certo ou errado, bom ou ruim.  A conduta humana de acordo com os nossos valores, quando estamos sozinhos ou acompanhados. Ética para mim, significa “integridade”.  Moralidade, também aprendi na escola, se refere ao nosso comportamento como humanos, em sociedade, em comunidade. Na verdade, o que percebo atualmente é que a ética e a moral na cultura dependem do que nos é conveniente, diferenciando da ética e moral dos conceitos de Aristóteles e de alguns filósofos e psicanalistas.

Aristóteles (384-322 AC) que é o criador da filosofia da ética, nos ensinou a usar a mente de acordo com a virtude, para alcançarmos a felicidade. Ele ensinou que a felicidade não é um prazer físico, mas vem da harmonia entre a mente e a virtude. A ética, também de acordo com os ensinamentos aristotélicos,  se dá em relação ao outro, preocupa-se a cima de tudo com o bem humano. Aristóteles afirmou que a virtude moral impede emoções desorientadas e inadequadas, ou seja, devemos ficar atentos aos nossos impulsos e desejos, reprimí-los ou sublimá-los, para melhor vivermos em comunidade.

Para Freud (Sigmund Freud), o médico que inventou o método de psicanálise, a ética se refere a um esforço terapêutico para atingir os parâmetros impostos pelo superego. O superego, também de acordo com os ensinamentos de Freud, é uma instância do inconsciente, sucessor e representante dos pais ou educadores, que direcionam as ações de um indivíduo nos seus primeiros anos de vida. Poderemos dizer que a ética em Freud explica racionalmente a necessidade do individuo de fazer o que é certo para si e para sua comunidade ou sociedade. A ética, segundo Freud, tem sua origem no “desejo” do Pai ou educador e na religião. Recomendo a leitura do Mal Estar na Civilização, texto de Freud do livro XXI, pág. 81, da coleção de livros Obras Completas de Sigmund Freud, Imago (1929-1930). Muito interessante.

A Ética Kantiana, (Immanuel Kant) nos explica que ações corretas são aquelas ações que não são instigadas por impulsos ou desejos, mas pela razão prática. A ação correta é certa se for empreendida por uma questão de cumprir o seu dever, e cumprir o dever significa agir de acordo com certas leis morais ou “imperativas”. Para nos ajudar a identificar aquelas leis que são moralmente obrigatórias, Kant forneceu-nos  o “imperativo categórico: Aja apenas de acordo com a máxima que você pode querer que se torne uma lei universal”, motivação adequada para a ação humana, exigência absoluta e incondicional que não pode ser desobedecida, não importando as circunstâncias. Nenhuma outra finalidade pode justificar a desobediência a uma lei universal.

Jacques Lacan (1959-1960) que é o mais influente pensador francês desde Sartre (1940) acredita no que ele chama de “consciência moral”, e a exclui completamente do campo da teorização da psicanálise. Ja no campo da clínica psicanalítica, Lacan não pode excluir essa “consciência moral” uma vez que esta aparece com frequência no discurso dos pacientes em processo de psicanálise.

É por causa da “consciência moral” que surge o “sentimento de culpa”, pela repressão do que o sujeito realmente deseja em confronto com as leis sociais. Portanto, Lacan acredita que quando agimos sem conformidade com o nosso desejo, geramos um conflito interno no nosso psiquismo e adoecemos psicologicamente.  Lacan portanto acredita que a ética da psicanálise não faz referência a relação entre indivíduos, e sim a relação do sujeito com seu próprio desejo e meios para atingir o gozo.

E nós, humanos, entretidos e divididos com toda essa discursão, por um lado, a necessidade de valores éticos e morais,  muito importantes para a convivência, segurança e sobrevivência em sociedade. Por outro lado, os ensinamentos Lacanianos de que reprimir os nossos desejos nos torna doentes psicologicamente. Talvez a resposta seja para que através da ética e da moral, os humanos possam viver mais pacificamente, criativamente, felizes e seguros. Será?

Sou constantemente lembrada por amigos quando “quebro o pau” metaforicamente com pessoas na rua que nem me conhecem em prol da ética e da moral. “Martha cuidado, você nao sabe se esta brigando com um marginal armado”, alertam os amigos. Talvez eu esteja me sentindo segura em começar uma argumentação sobre ética e moral com estranhos, por causa dos meus cabelos brancos ou pelo meu pensamento de que o transgressor pode ter considerado não me agredir fisicamente porque nada mais sou do que uma “velha rabugenta”?

O fato é que está difícil. Como diz meu neto Filipe: “tá muito difícil,” viver ética e moralmente no nosso Brasil atual.

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