05/06/2017 - 13:06

Silêncio não é opção


Eu moro em Boston há quase 30 anos e tenho orgulho de viver em um estado progressista politicamente. Na verdade, supostamente  progressista porque nos útimos anos não conseguimos passar lei alguma em favor dos imigrantes.

Massachusetts tem uma tradição de proteger os direitos dos trabalhadores, por exemplo, independente de status imigratório, de oferecer assistência de saúde para todos, embora cada dia mais limitado. Massachusetts tem Cambridge, a primeira cidade do país a pedir abertura de investigação para impeach o Presidente. Este foi o primeiro estado da nação a legalizar o casamento gay.

Massachusetts é tambem sede de um dos piores raids da imigração (New Bedford, 2007), onde 361 pessoas foram presas, a maioria mulheres com crianças pequenas, inclusive um bebê que foi parar na emergência desidratado por falta de amamentação. Que governo impede uma mãe de amamentar seu filho?

Trabalhando há 22 anos com direitos dos imigrantes, eu não devia ter ficado chocada ao saber da prisão, no aeroporto Logan, de uma criança de 11 anos, que vinha visitar a mãe que mora em Lowell. Após horas de interrogatório, a menina deu entrada no Masshuchesstts General Hospital com dor de estômago aguda, o que não impediu sua deportação 24 horas depois.

Mas fiquei chocada, confesso. tomada por uma desilusão profunda e uma sensação geral de nojo. Meu estado geral só piorou porque, na mesma semana, oficiais de imigração armaram uma cilada para quatro pessoas, inclusive uma brasileira, que tinham hora marcada em Lawrence, para dar entrada no processo do green card.

Para me recuperar, recorri aos meus livros de história. Nenhum movimento reivindicatório foi vencido sem luta, resistência e sacrifícios. Reli o discurso do reverendo Martin Luther King em Nova York, em 4 de abril de 1967, contra a guerra no Vietnam: "Nos últimos dois anos tenho tentado quebrar a traição do meu próprio silêncio", disse King. Exatamente um ano depois, o reverendo foi assassinado em Menphis, Tennessee.

King pagou com a vida por acreditar que o povo tem voz e direitos e deve exercê-los. O movimento que criou, no entanto, não morreu com ele. Pelo contrário, multiplicou-se, criou raízes, derrubou muralhas. Nossa opção é a luta. Nossa arma é a nossa voz. A bala que matou King parou seu corpo mas não sua voz e determinação.

Este é o exemplo que devemos seguir. Ninguém está seguro neste momento nos Estados Unidos. Nem eu, nem você, com ou sem documento. Algumas, como as pessoas negras, imigrantes, deficientes, mulheres e LGBTQ, correm mais risco, mas se todas nós nos identificarmos como negras, imigrantes, deficientes, mulheres e LGBTQ, ninquém vai poder nos dividir e categorizar. Quando vierem te buscar, vão ter de me levar junto.



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