09/02/2017 - 20:26

“Pimenta no olho do outro é refresco”


Hoje não poderia de deixar de compartilhar com vocês uma cena que é a realidade de centenas de famílias que moram neste país. Conversando com uma médica, como eu, imigrante, como eu, de origem síria, e que está trabalhando em outra área que não a sua, como já fiz, grávida, ela me confidenciou que estava chorando quando ouviu a nova ordem executiva de Donald Trump. “Não poderei mais ver  os meus pais?”

Aquele é o choro de muitos, muçulmanos ou não, imigrantes ou não. Nós que entendemos o quanto é penoso se aventurar numa outra terra, longe dos entes queridos;  e mais, quando isto  ocorre porque a pessoa corre risco de vida no seu lugar de origem. No mesmo dia, vejo um casal dirigindo  um carro  com uma baita de uma bandeira. E me pergunto, seria isso considerado patriotismo? Ou a maneria de defender a sua nação é  mesmo atacando os que fisicamente e culturalmente não são semelhantes  a você?

Não consigo deixar de pensar naqueles que se promovem como cristãos, que querem viver  e professar a sua fé às custas do detrimento da vida e condições do outro. Religião, futebol e  política são temas que nós, brasileiros, falamos que não se deve discutir. E ainda assim o que vejo é um, literalmente falando, metendo a língua e se achando o todo poderoso para julgar e decidir o destino do outro. É essa a filiosofia que impera nesta humanidade?

De médico e louco, todo mundo tem um pouco, mas a irracionalidade tem chegando a um ponto que está se  tornando um modelo a ser seguido por várias pessoas. Começo a achar que fatores alternativos estão aguçando a seleção natural argumentada por Darwin e que os que estão sobrevivendo a esta intempérie são fortes e com capacidade de serem resistentes. Resiliência é a palavra de ordem. Contudo,  não podemos deixar de lado e fazer vista grossa aos que estão apenas querendo pegar a fatia da torta e deixar o outro a comer moscas. O lobo tem que ser reconhecido!

O que vemos não é só a insanidade dos dirigentes, mas  a hipocrisia e falsidade do povo, que usa a bandeira da fé e dos bons costumes, recatados e do lar, e que cometem barbaridades. Por que a necessidade de atingir para se sentir seguro? Por que fechar os olhos para a realidade? Por que voce demorou a colher frutos e passou por seca, agora quer ver o outro se arrebentar e nao ter sequer a  esperança da colheita?

Nós somos o que somos e o  sentimento de fraternidade que deveria existir virou utopia. Porém, nem tudo está perdido. Antes do início de uma guerra, a possibilidade de paz existe. Antes de se deixar levar pelo negativismo e a escuridão, a luz e sua positividade estão à disposição. E nós, o que precisamos? Resgatar os nosso valores, amar, apoiar e lutar junto. Talvez olhes para estas palavras e penses que são de uma sonhadora. Sem sonhos, a realidade não existe! E sem ação, nada acontece.

Está na hora do “sim”. Do parar a quem maltrata e denunciar. De abrir o teu coração e ser um santuário onde palavras e atos discriminatórios não existem. De ser o transmissor de informação e palavras amáveis. De não temer a luta.

Não pense que um certificado de cidadania esconde o teu pasado e o que você é. Respeito a  sua decisão,  seja política ou por outros motivos. Mas não deixe que a sua essência seja roubada ou corrompida por opiniões ou finanças. Olhe o seu passado e os que estão ao seu redor. Olhe pro seu filho ou neto. Qual é o legado que você quer deixar para eles? Poeira? Porque no final todos voltamos ao mesmo lugar, com turbante, hijab, coroa ou não. Ao pó!



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