09/02/2017 - 20:25

Como se não bastasse, agora vem outro surto


Escrevi uma coluna há alguns meses intitulada “Um Mosquito e Três Doenças: Dengue, Chikungunya e Zika.” Infelizmente nas últimas semanas reapareceu a quarta doença transmitida pelo mesmo Aedes Aegypti, a febre amarela. O Ministério da Saúde do Brasil informou aos brasileiros que o número de casos aumentou recentemente em Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, São Paulo e Distrito Federal. A febre amarela é uma doença infecciosa grave que pode levar à morte. Os sintomas mais comuns são febre alta, mal estar, dor de cabeça, dores musculares, cansaço, vômitos e náuseas.

Os sintomas desaparecem depois de quatro dias na grande maioria dos casos. Porém, em cerca de 15% ocorre icterícia (cor amarela na pele, que por isto deu nome a doença), insuficiência hepática e renal, e pode evoluir para lesões no sistema nervoso e coma. Cerca de 50% dos casos graves resultam em falecimento. Não existe remédio contra o vírus, mas há muito tempo existe uma vacina eficaz. Há que tomar a vacina a cada 10 anos para manter a imunidade. Como toda vacina, existem algumas pessoas que não podem ou devem tomá-la sem maiores cuidados.

O virus da febre amarela é transmitido por macacos silvestres infectados para seres humanos quando um mosquito chamado Haemagogus pica alguém que nunca teve a doença em áreas de floresta. Se esta pessoa infectada transita por centros urbanos onde há bastante Aedes e é picada de novo, ela dissemina o vírus para outros mosquitos que o transmite para residentes de áreas urbanas, que não foram vacinados ou nunca tiveram a doença. Embora a febre amarela sempre tenha continuado em áreas  próximas a centros populosos em alguns estados do Brasil, estava sob controle há muito tempo.

Existe agora grande risco de que ela se urbanize de novo e se torne uma epidemia nacional, porque o número de casos vem aumentando rapidamente em vários estados. A grande pergunta que temos é: porque nos últimos anos este mosquito tem criado tantas doenças por todo o Brasil? Por que não conseguimos mantê-lo sob controle como o fizemos no passado?

A esta altura do placar talvez deveríamos mudar o nome deste mosquito para Aedes Brasilis, porque já se tornou parte da natureza brasileira há mais de um século. Talvez alguns leitores tenham ouvido falar de um grande cientista brasileiro chamado Oswaldo Cruz, que deu nome ao principal instituto de pesquisa em saúde pública no Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz ou Fiocruz, localizada no Rio de Janeiro. Pois bem, Oswaldo Cruz foi pioneiro no combate a febre amarela no Rio, que gerou a chamada “revolta da vacina” porque houve uma verdadeira insurreição popular na cidade contra as medidas tomadas por ele e o prefeito Pereira Passos para erradicar o Aedes e imunizar a população. Consulte a página https://goo.gl/m8YgZKpara conhecer um pouco mais sobre a interessante história desta revolta.

Tudo indica que a proliferação do mosquito no período recente tem a ver com a falta de investimento em saneamento básico em grande parte do país, além das políticas públicas que cortam recursos do Sistema Único de Saúde e impossibilitam controle eficaz e contínuo dos criadouros do mosquito. Cabe sem dúvida destacar a exagerada borrifação de inseticidas em todas as grandes cidades com a equivocada ideia de que matar as larvas do Aedes e o mosquito adulto com inseticidas é a melhor ou única solução para controlar a sua proliferação. A discussão sobre como controlar este mosquito demanda muito mais espaço do que uma coluna e exige conhecimento aprofundado sobre a sua reprodução. Simplificando, quando se trata de dar conta de epidemias de doenças transmitidas pelo Aedes não temos muitas outras alternativas além de reduzir a quantidade de mosquitos a curto prazo. Porém, só conseguiremos enfrentar adequadamente e preveni-las, quando o Brasil tiver políticas sociais e ambientais que preservem o meio ambiente, ampliem a rede de esgoto e coleta de lixo para a grande maioria da população, e distribuam renda de verdade para reduzir a pobreza e a desigualdade no país.          



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