26/11/2016 - 20:28

O Vale do Rio Doce voltará a ser o mesmo?


Provavelmente todos os imigrantes brasileiros de Minas Gerais, particularmente das cidades do Vale do Rio Doce, ouviram falar ou viram imagens na televisão da poluição do rio causada pelo rompimento de uma barragem de rejeitos de minério de ferro da Samarco, localizada em Mariana. Verdadeiro crime ambiental contra as populações ribeirinhas, os índigenas Krenak, os pescadores, a flora e a fauna do Vale e considerado a maior catástrofe ambiental do Brasil. No dia cinco de novembro faz um ano que esta catástrofe ocorreu.

A Samarco é uma empresa de capital fechado fundada em 1977 e controlada pelas duas maiores mineradoras do mundo (acionistas, ou donas): a anglo-australiana BHP Billiton Brasil Ltda, e a brasileira Vale S.A. Sua intensa exploração e extração do minério de ferro ocorre no Espírito Santo e Minas Gerais.  Barragens de rejeitos de minério de ferro são estruturas de terra construídas para armazenar resíduos da mineração do ferro. Estes resíduos são a fração não útil gerada pelo beneficiamento do ferro através de processo mecânico e/ou químico que divide o ferro bruto em ferro concentrado e rejeito. O rejeito não tem valor econômico, mas para cuidarmos do meio ambiente  tem que ser devidamente armazenado e tratado.

A extensão do dano alcançou o Oceano Atlântico, através do mar da vila de Regência – Linhares, onde se situa a foz do rio Doce. Os rejeitos se espalharam no litoral do estado do Espírito Santo, no sentido sul. E também dispersaram-se no sentido norte, pois manchas de lama foram detectadas nas proximidades do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, sul da Bahia. Cerca de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos poluíram e devastaram a natureza ao longo do rio.

Visitei a cidade de Valadares em junho deste ano para participar de um simpósio sobre imigração e meio ambiente, organizado pela Univale em parceria com diversas instituições locais e nacionais. Neste evento, tive oportunidade de ouvir palestras de diversos pesquisadores sobre os impactos da catástrofe na vida das populações do Vale. E também pude conversar com vários colegas e moradores da região sobre o grande sofrimento dos moradores de cidades como Governador Valadares, onde até hoje se debate se a água que chega nas torneiras é ou não é potável. E também a indescritível desgraça que a morte do rio representou para os Krenak, cuja população atualmente não passa de centenas somente.

Infelizmente tudo indica que o rio levará muito tempo para voltar a ser o que foi antes de receber tamanha contaminação de metais pesados tóxicos, que com certeza matou grande quantidade de peixes e animais e inviabilizou a pequena agricultura familiar. Afinal de contas, ninguém vai querer comer vegetais e frutas contaminadas por químicos que podem causar doenças sérias a curto prazo e morte, a longo prazo.

Como resultado da falta de transparência dos órgãos públicos do Governo de Minas Gerais, do Governo Federal e de muitas Prefeituras, sem falar na “cara de pau” dos administradores da Samarco, existe desconfiança generalizada a respeito de tudo que as autoridades dizem e fazem para tranquilizar os moradores das dezenas de cidades ribeirinhas. Por outro lado, a Samarco faz de tudo para não indenizar os agricultores, as famílias desalojadas,  as famílias que perderam entes queridos, as prefeituras, e o estado, enquanto  as investigações feitas pelo Ministério Público ao longo do último ano indicam que houve negligência comprovada da empresa em não tomar medidas para evitar a tragédia. Digo e repito que a Samarco teve até a “cara de pau” de recentemente submeter documentação aos órgãos de meio ambiente de Minas Gerais requerendo licença para voltar a operar em futuro próximo. Em poucas palavras, não só não quer pagar pelo enorme crime que cometeu, como faz pressão política para que volte a ter direito a contaminar o rio Doce.

Por se tratar de questão complexa que exige discussão profunda, sugiro a todos os nossos leitores que acompanhem os estudos feitos para medir os impactos ambientais e sociais dirigindo-se ao site do Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental (GIAIA), na página http://giaia.eco.br. São profissionais de bem que estão comprometidos em monitorar os impactos biológicos e sociais causados pela ganância da Samarco, que não só aumentou a produção de ferro para exportação visando aumentar o seu lucro de curto prazo, como deu pouca importância para a proteção dos trabalhadores e moradores do Vale. Será que valeu a pena entregar a Vale para multinacionais a preço de banana, conforme foi feito na década de 1990?  



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