23/12/2015 - 09:03

Prevenir é melhor do que remediar: Os pais, os jovens e as drogas


Existe um antigo e sábio ditado que diz: “Prevenir é melhor que remediar!” Você já parou para pensar o que é prevenção? Na última década houve uma significativa mudança nos padrões de consumo de drogas entre os jovens.  Pesquisas sugerem que há iniciação precoce, uso de novas drogas, como por exemplo as sintéticas (comprimidos usados nas “baladas”), e  combinação de várias drogas. Este panorama gera um grande desafio para os pais, isto é,  como educar os filhos para evitar o abuso de drogas. Não é uma tarefa fácil nem há receita ponta, mas algumas orientações com base em experiências exitosas podem ser úteis.

Buscar informações adequadas sobre o assunto é uma das formas de quebrar os tabus, que interferem na maneira como os pais abordam um tema tão polêmico com os filhos. Um deles é a possibilidade de que o adolescente se torne dependente a partir de uma única experiência com as drogas. Evidências científicas têm mostrado que nenhuma droga por si só tem o potencial de produzir dependência a partir de um único uso.  Há também a crença de que as drogas ilícitas são mais prejudiciais à saúde do que as lícitas. Esta ideia equivocada faz com que os filhos convivam com familiares que consomem drogas lícitas, como  álcool e cigarro, sem que haja um diálogo com os adolescentes sobre o uso destas substâncias. A nicotina, substância presente no cigarro, por exemplo, é considerada a droga com maior poder de dependência. Assim, vemos na sociedade brasileira um paradoxo entre a grande permissividade quanto ao uso das drogas legais e a intolerância às drogas ilegais.

Outra crença comum entre os pais é de que a iniciação ao uso de drogas ocorre em função do contato dos filhos com colegas que consomem drogas, as chamadas “más companhias.” No entanto, estudos mostram que adolescentes que querem experimentar drogas buscam amigos que podem disponibilizá-las. Estas e outras premissas fazem parte do senso comum. Neste sentido, superar alguns mitos, não utilizando informações inconsistentes e/ou preconceituosas, contribui para uma prevenção mais efetiva.

O aspecto central da prevenção parte da compreensão do fenômeno das drogas a partir das relações estabelecidas entre o adolescente e seu contexto. É muito importante atentar para a qualidade das interações na família, na escola e na comunidade.

Pesquisas mostram que famílias com bons padrões de interação, tais como: comunicação clara entre os membros, tomada de decisões compartilhada, existência de normas, disponibilidade de informações sobre drogas, e laços afetivos entre pais e filhos envolvendo cumplicidade e respeito, têm menos chances de que os filhos abusem de drogas. Vínculo positivo com a escola e bom desempenho acadêmico também protegem contra o uso de drogas, bem como as redes de apoio na comunidade como os amigos, o lazer e as práticas religiosas. Da mesma forma, algumas habilidades pessoais como auto-confiança, autocontrole, e empatia fortalecem o adolescente para que este produza interações saudáveis para si.

Muitas vezes, em comunidades carentes, faltam políticas públicas que garantam o exercício da cidadania dos jovens. Sem alternativas, o consumo ou o tráfico de drogas podem se configurar como rotas de fuga. Neste cenário, é fundamental que os pais saibam ensinar seus filhos a construir projetos de vida a partir de uma perspectiva crítica da sua realidade e de criação de novas possibilidades tanto para eles como para seu entorno.  Em resumo, prevenir envolve informar com coerência, estabelecer vínculos afetivos profícuos e duradouros, e ser ativo na busca de condições sociais que proporcionem o pleno desenvolvimento da nossa juventude.  

*Autoria de Danyely Tatmatsu, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Ceará e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de São Carlos. Atualmente faz estágio na UMass Boston sob supervisão do colunista Eduardo Siqueira.



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