25/10/2015 - 19:54

A nova revolta de “status”


Os brasileiros começaram a chegar em Massachusetts em grandes números em meados dos anos 80. Uma maioria de homens e mulheres jovens, com algum estudo. Após 2001 uma segunda leva de brasileiros veio de lugares remotos, interiorzão, alguns com bem pouco estudo. Este ano, uma terceira leva está chegando, a maioria jovem, com nível superior e de classe média no Brasil. “É uma nova página na história da nossa comunidade e um grande desafio”, diz Irmã Elisete Signor, do Centro Comunitário Scalabrini, em Everett.

 

De junho a setembro, o Centro atendeu 460 pessoas recém-chegadas do Brasil. “Nós não contamos maio”, diz Irmã Elisete, “mas no final do mês eu disse ‘alguma coisa está acontecendo aqui’ e iniciamos uma pesquisa informal” para detectar quem eram estas pessoas e de onde vinham. A necessidade maior é o seguro de saúde, mas tem também a matrícula escolar das crianças.

 

O que Irmã Elisete descobriu dá para traçar um perfil desta nova leva de migrantes brasileiros: em junho ela atendeu 54 recém-chegados. Em julho o número quase duplicou: 96. Em agosto triplicou: 166, dos quais 42 eram famílias, e em setembro – “eu pensava que não viriam mais ninguém porque as aulas já haviam começado” – o Centro atendeu 144, dos quais 31 eram famílias. Algumas dessas famílias têm 4 ou 5 membros. “Você já imaginou um sistema escolar receber 31 famílias de xofre?”

 

Essas famílias vêm do Paraná – muitos professores devido a greve e a reação do governo do Estado que maltratou os professores, pondera a Irmã. Outros vêm de Santa Catarina (Tubarão, Criciúma, Araranguá e de Florianópis), Goiás, Mato Grosso, Rondônia, Acre, Fortaleza, Ceará, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. Chegam menos da região de Belo Horizonte (todos jovens formados) e de Vitória.

 

Cerca de 90% destes novos brasileiros têm nível superior, são professores com doutorado, advogados, dentistas, químicos, veterinários, psicólogos, formados em educação física. A maioria parece ser mulher - este dado não está confirmado -, mas uma pesquisa aleatória de 10 formulários preenchidos por indivíduos 9 eram mulheres.

As famílias moram em Everett, Malden, Medford, Somerville e também em Arlington, Woburn, Amsbury, Saugus, Quincy, Dorchester, Chelsea, Burlington, Stoneham, ou Marshfield. Como dizem os norte-americanos, “you name it”.

 

Muitos dos recém-chegados têm visto de estudante “mas planejam mudar para obter uma carteira de motorista”. Querem aprender inglês e trabalhar. A maioria das mulheres “tinham empregadas, até motorista, chegam aqui de uber porque não sabem andar de transporte público, ensinamos tudo”. Definitivamente, conclui Irmã Elisete, esta não é uma migração econômica, estas famílias não estavam passando fome, elas estão revoltadas “com a situação política no Brasil, não aceitam descer” (de status).

Qual será o futuro desta nova leva? Estas pessoas vão se estabelecer e criar raízes ou vão regressar quando cairem na real? Vão aceitar trabalhar como faxineiras? Vão se engajar politicamente para provocar uma mudança social? Ou serão simples espectadores preocupados em manter um pseudo status social e engordar a conta bancária?



COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA