06/09/2015 - 20:02

Obesidade no mundo inteiro: de quem é a culpa?


A preocupação com a obesidade e seus desdobramentos futuros, como doenças crônicas e câncer tem atingido o ápice entre as preocupações dos governos de todos os países. Instrumentos e normativas têm se criado para tentar diminuir o avanço da doença, que afeta adultos e crianças, como reflexo dos hábitos dos pais e das sociedades.

Historicamente, o peso das pessoas começa a mudar quando há fartura de alimentos após a segunda guerra mundial, período em que há estabilidade econômica e em que a indústria de alimentos ganha mais espaço na sociedade. Com o mundo estável, a industrialização de alimentos passa a ser uma resposta concreta contra a escassez. Alimentos foram então criados para combater a fome a partir de ingredientes mais baratos, como o açúcar e o óleo, de forma a produzir  alimentos para toda a população.

O dilema da obesidade só ficou evidente no final do século 20, quando além do aumento das doenças crônicas, houve aumento significativo da obesidade em crianças. Estratégias de combate foram criadas e pesquisas realizadas para conhecer melhor as causas do problema; chegou-se a conclusão que o tipo de alimento mais consumido pelas crianças poderia levar à obesidade. Nos últimos anos, devido ao aumento da urbanização, a extensas jornadas de trabalho, e a facilidade de obtenção dos alimentos industrializados, observou-se aumento do consumo dos mesmos em todas as classes sociais.

Hoje é  muito mais prático colocar um pacotinho de macarrão na água fervente por três minutos com o tempero já pronto e dar para uma criança, acompanhado de refrigerante ou suco industrializado, do que preparar uma refeição típica, com macarrão, molho, legumes,  verduras e suco de fruta. A indústria de alimentos ganhou espaço na sociedade em função da praticidade e conforto que a refeição caseira não proporciona.

O que então provoca a obesidade? Quando se vê o rotulo de um alimento industrializado, metade dos ingredientes é desconhecido do público leigo e até mesmo de alguns profissionais de saúde, pois são aditivos alimentares ou formas industriais de açúcar e gordura que acrescentam mágico sabor aos alimentos e o excesso de calorias que faz com que consumidores se viciaem com o sabor e ganhem peso sem perceber.

Segundo uma matéria do New York Times de 20 de fevereiro de 2013,  o problema da obesidade vai além dos objetivos traçados para seu combate; os cientistas responsáveis pelas indústrias de alimentos modificam o sabor de um alimento industrializado para que dê o que as pessoas mais esperam ao comer algo: prazer! E com isso provocam uma dependência do produto, gerando mais consumo – algo que infelizmente, o produto natural não faz. Esse mesmo fato foi observado em um documentário produzido por um jornalista há alguns anos, o Super Size Me. Nele o jornalista se submeteu a uma dieta de comida rápida por 40 dias  e mostrou o quanto o consumo desses alimentos deixa o indivíduo dependente do alimento, cansado, e sem energia. Tudo indica que há muito mais responsabilidade da indústria em produzir esse tipo de alimento do que do individuo em consumí-lo.

O Brasil tem tido alguns avanços por meio de acordos com a indústria de alimentos no sentido de reduzir sal e açúcar nos alimentos industrializados e de reduzir a propaganda de alimentos, principalmente os consumidos pelas crianças. Iniciativas louváveis do Instituto Brasileiro do Consumidor (IDEC) tem levado ao consumidor e ao profissional de saúde o conhecimento sobre rótulos de alimentos, como usar as informações nos rótulos e lutar para que mais informações sejam veiculadas nos rótulos.

Só vamos conseguir superar o problema da obesidade e seu ônus para a sociedade quando conseguirmos empoderar a população acerca dos seus direitos como consumidor e como pessoas, e  quando as indústrias de alimentos trabalharem seriamente em prol do bem estar e saúde da população. Acredito que a solução dos problemas está nas escolhas, escolhas mais saudáveis, mais culturais e mais felizes; afinal, o comer é isso, escolhas que preservam a cultura de um povo, a felicidade de comer, compartilhar e viver!

*Texto de Anne Cristine Rumiato, nutricionista em Londrina e doutoranda em saúde do trabalhador na faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Anne fez doutorado sanduíche for quatro meses na UMass Boston em 2015 sob supervisão do Dr. Eduardo Siqueira.



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