As “Marias” dos abusos sexuais

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Já se passaram mais de 10 anos mas a violência é vívida, como se estivesse acontecendo nesse exato momento. Maria não precisa fazer nenhum esforço para reviver aqueles momentos de terror e nojo. “Eu não sei quanto tempo eu fiquei ali no chão me sentindo suja, pequena e paralisada”. Maria é uma das milhões de vítimas de abuso sexual no trabalho. Ela trabalhava como housecleaner, confiava e gostava dos patrões, um casal, até o dia em que foi induzida a fazer uma limpeza sozinha com o patrão.

Maria é também uma sobrevivente. Sofre altos e baixos; ainda não consegue recontar os fatos sem chorar, mas sobreviveu e venceu. Como Maria, milhares de outras mulheres vítimas de abuso sexual sobrevivem e compartilham suas histórias de terror mas também de resiliência. Por isso, falar de abuso e assédio sexual e de violência de gênero é tão importante. Por anos as mulheres se calaram e viveram com o pânico e a vergonha de “alguém descobrir” o que lhes acontecera.

Quem deve ter vergonha, no entanto, é o abusador e eu tomo a liberdade aqui de usar a forma masculina porque mais de 80% dos casos de abuso sexual e violência de gênero são perpetrados por homens, embora a gente não possa deixar de reconhecer que alguns homens  são vítimas. É preciso, também, estabelecer que gays, lésbicas, transgêneros sofrem abusos indescritíveis que beiram a discriminação e o preconceito.

A campanha #metoo que tomou conta do país ano passado trouxe o assunto para o centro da discussão e, melhor ainda, deu forças a tantas mulheres, jovens e idosos, famosas e desconhecidas, de denunciarem, contarem suas histórias. Vocês acompanharam o caso do médico das Olimpíadas que usufruiu da sua posição, carisma e prestígio para abusar de mais de 100 crianças e adolescentes? Imagine você mãe ou pai de uma das vítimas, sem saber de nada e até proporcionando a oportunidade para o abuso porque é você que leva a criança e adolescente para a consulta.

Como nós, mães e pais, prevenimos estes crimes? Quais os sinais? Nunca devemos duvidar do que nossos filhos nos dizem. Devemos sempre deixar a porta aberta para que nos contem o que acontece.  É importante não julgarmos, nem partimos do pressuposto de que mentem, inventam, fantasiam. Crianças e adolescentes têm maneiras criativas de nos deixarem saber o que se passa. Quando não ouvimos, podem partir para comportamentos destrutivos, violentos.

Outra ideia é sempre se colocar no lugar do outro e se lembrar como éramos naquela idade. Manter uma mente aberta, informada e capaz de passar informação. Não há uma fórmula, ainda, capaz de prevenir casos de abuso e violência porque infelizmente está na natureza humana de determinados indivíduos mas quanto mais falarmos e denunciarmos mais difícil é ficar impune. Não vamos deixar que a violência, a impunidade, o crime vençam. Criminosos devem ser julgados, condenados e sentenciados. Vítimas devem ser amparadas para que possam superar e recomeçar.