09/02/2017 - 20:40

Brasileira que superou maus tratos como babá, e virou doutora, fala que é possível vencer


Ela chegou aos Estados Unidos aos 19 anos de idade, depois de ter completado apenas a oitava série (ensino escolar fundamental) no Brasil. Veio ao país como babá de uma rica família brasileira, com quem trabalhou por dois anos, mas sofrendo maus tratos. “O meu quarto era em uma varanda, eu não me alimentava bem, não deixavam eu colocar o meu nome na caixa do correio para me comunicar com minha família, e me pagavam $25 para trabalhar 90 horas por semana. Eu era oprimida, marginalizada e tinha meus salários roubados”, contra Natalícia Tracy, hoje, diretora executiva do Centro do Trabalhador Brasileiro (CTB), em Allston. O órgão é historicamente conhecido como o Centro do Imigrante, organização não-governamental que defende direitos trabalhistas. Formada com P.H.D pela Universidade de Boston na àrea de Classe, Raça, Status Imigratório e Vida Familiar, a agora “Dra. Natalícia” é um exemplo de imigrante de sucesso na américa. Ela está expandindo uma iniciativa com a Occupational Safety and Health Administration (OSHA) órgão federal que investiga e protege trabalhadores contra acidentes no trabalho. A Brazilian Magazine sentou com Natalícia, que garante que é possível o sucesso de todo imigrante nos Estados Unidos. “É preciso se esforçar, não temer, e fazer o que é certo”:

Brazilian Magazine (BM):Por que a mudança do nome de Centro do Imigrante para Centro do Trabalhador?

Natalicia Tracy (NT):Porque queríamos tratar mais as questões de desigualdade e injustiça  econômica sofrida pelos imigrantes, incluindo nós brasileiros.  Porque o nome “Centro do Trabalhador” está relacionado com as características da comunidade (sendo que a maioria veio para trabalhar) e isso gera menos criminalização vinda dos grupos anti-imigrantes.

(BM):E qual tipo de assistência o Centro oferece hoje?
(NT):O Centro do Trabalhador Brasileiro (CTB) é uma organização comunitária que apoia os imigrantes e lida com assuntos tais quais: direito trabalhista e imigração. Nós trabalhamos instruindo a comunidade a exercer seus direitos através de cursos de liderança, capacitação, e participação cívica. A nossa missão é unir os brasileiros e outros imigrantes ajudando-os a se organizarem contra a exclusão econômica, social e política, criando assim, uma sociedade (mais) justa.

Nós ajudamos os membros de nossa comunidade a entender os seus direitos como trabalhadores e residentes de nosso estado, sendo que com essas novas habilidades eles poderão exercer seus direitos. Nós apoiamosprincipalmente os trabalhadores na restituição de seus salários roubados e outras violações trabalhistas. Além disso, oferecemos cursos de inglês como segunda língua, cursos de saúde e segurança no trabalho, cursos de liderança e engajamento cívico.

(BM): O que é o projeto da OSHA com o CTB e por que é necessário?
(NT):  Este é um projeto antigo, que começou no Centro há mais de uma década, e teve seu fim em 2008/2009. Porém, em 2012, quando eu assumi a direção do Centro nós  renovamos a nossa aliança formal com a OSHA e desenvolvemos uma série de novos treinamentos. É necessário porque os membros da nossa comunidade  não têm acesso aos treinamentos feitos pelos sindicatos que protegem os trabalhadores dos perigos comuns no local de trabalho, e eles são os que sofrem acidentes e mortes três vezes mais do que os trabalhadores americanos. E isso acontece especialmente em construções residenciais, onde temos uma concentração maior de imigrantes brasileiros.  Treinamos mais de 2500 trabalhadores na area da construção civíl desde 2012, em português e em espanhol. Agora, estamos expandindo o programa de formação dos trabalhadores na área da construção, salões de beleza, limpeza e trabalho doméstico.

(BM): Como trabalhadores brasileiros podem participar e se beneficiar desse projeto Centro-OSHA?
(NT):  Todos os membros da comunidade que trabalham em algum destes setores que damos os treinamentos podem entrar em contato conosco e registrar. O bem-estar da nossa comunidade depende de todos estarem cientes dos potenciais perigos no local de trabalho, de seus direitos para trabalharem em um ambiente seguro, com equipamentos de segurança e outros dispositivos de proteção fornecidos pelo empregador, e além de estarem informados sobre seus direitos em casos de acidente de trabalho.

(BM): Qual a sua mensagem para os brasileiros em Massachusetts nessa era Trump?
(NT):  A era do Trump é um tempo cujo o caráter eu realmente não sei ainda. Não temos certeza do que está por vir, mas temos de estar preparados para tudo. Imigrantes, especialmente os indocumentados, é o grupo mais vulnerável em nossa sociedade, mas precisamos nos lembrar de quão resistente somos. Nós, geralmente, sobrevivemos a pobreza, chegamos muitas vezes passando por dificuldades e até mesmo perigos, aprendendo como lidar com as circunstâncias sem ter os recursos necessários, e na maioria das vezes sem falar a língua. Vamos lembrar da nossa força e esperança, construir solidariedade em toda a nossa comunidade e em outros grupos,  defender nossos direitos de viver em paz nesse país, e contribuir para ele, se utilizando do presente que trazemos conosco como pessoas que trabalham duro, tementes a Deus, e com uma energia positiva.



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