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A vida das mulheres nos tempos do Zika

Em maio de 2015, a Organização Panamericana de Saúde (OPAS) divulgou um alerta sobre o primeiro caso confirmado de infecção pelo vírus Zika no Brasil. Em setembro de 2016, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que o vírus da Zika era um problema de saúde pública e caso de preocupação em âmbito mundial. Quando em novembro de 2016 a OMS rebaixou o Zika de emergência de saúde para ameaça comum, mais de 50 países e estados dos Estados Unidos da América continuaram a relatar transmissões ativas do vírus. O Zika continua presente entre nós e veio para ficar.

O vírus da Zika pode provocar anomalias cerebrais congênitas no feto durante a gravidez, o que levou governos e agências nacionais e internacionais a emitirem recomendações para salvaguardar as mulheres. Como resultado, a saúde reprodutiva das mulheres tem sido duramente afetada pela disseminação do vírus Zika.

Embora exista grande preocupação com os aspectos biomédicos da doença, pouco tem sido discutido sobre os aspectos psicológicos, sociais e éticos da epidemia. Existe uma necessidade clara de entender como a epidemia de Zika afeta as decisões das mulheres em relação às suas vidas, incluindo a saúde reprodutiva e a vida pessoal e familiar.

Entrevistei mulheres no estado de Massachusetts, oriundas de comunidades brasileiras, porto-riquenhas, da América do Norte, do Sul e Central, a fim de conhecer suas percepções sobre a vida diária nos tempos do Zika e como estão lidando com a epidemia, tanto emocionalmente quanto psicologicamente. Analisei os impactos da epidemia na vida familiar dessas mulheres, indiretamente afetadas pelo vírus para obter um quadro mais claro das repercussões do Zika.

Descobri que a epidemia tem representado um grande peso para o bem-estar emocional das mulheres. Por um lado, a presença do vírus criou sentimentos confusos e contraditórios de alegria e tristeza durante a gravidez, já que as mulheres se viram impedidas de desfrutar plenamente do sentimento de maternidade, ou se viram compelidas a renunciar a este sentimento. Por outro lado, elas se colocaram como responsáveis por não contrair o vírus, quando na verdade não dispõem de meios para controlar o mosquito e o contágio.

As estratégias adotadas pelas mulheres para lidar com a epidemia parecem criar obstáculos às suas carreiras, isolamento familiar e comprometimento do bem-estar físico e emocional. Os relatos delas indicam que estão incorrendo em um grande sacrifício na tentativa de garantir que tenham um bebê saudável; sacrificam suas vidas profissionais, a fim de evitarem exposição a ambientes que oferecem risco de contágio pelo mosquito, e se privam da exposição a ambientes de lazer, vida social e familiar, na tentativa de se afastarem do risco de contato com o mosquito, o que aumenta as chances de isolamento social.

Igualmente, os impactos sobre a vida sexual e reprodutiva preocupam. Algumas entrevistadas disseram que desistiram ou adiaram os planos de engravidar. Outras revelaram abstinência sexual durante a gravidez, o que acaba por afetar o relacionamento com o parceiro.

Os efeitos a nível pessoal incluíram a redução do bem-estar físico e emocional, sentimentos de isolamento, tristeza e inquietude. A vida familiar das entrevistadas também foi afetada. Elas relataram com bastante frequência um sentimento de isolamento em relação a parceiro, filhos, pais, parentes e família extensa. Muitas participantes do estudo transmitiram um forte sentimento de perda de controle sobre suas vidas e sobre suas decisões reprodutivas.

Meus achados indicam que a epidemia do Zika representa um ônus pesado, porém silencioso para  as mulheres. Além disso, nenhuma mulher encontra-se realmente isenta. Pelo contrário, os impactos da Zika sobre as mulheres caracterizam-se pela sua escala global e universal.

*Texto de Ana Rosa Linde, PhD - Pesquisadora Visitante na UMass Boston.

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